o peso do mundo

Publicado: 16 de maio de 2011 em Uncategorized

– Vô lá no riacho! – gritou da porta.

O peso sobre a cabeça fazia latejar-lhe os miolos. A pele morena ardia com a quentura do sol e o cabelo queimava ao contato com o plástico desbotado da bacia. O crânio parecia moldado ao recipiente que levava as roupas usadas, sujas. O pescoço era firme, e a musculatura avantajada. Dolores suportava o peso do mundo.

As pernas arqueadas seguiam ladeira abaixo. As trouxas de roupa seguiam com elas. O sol estava demasiado quente naquela tarde. Retirou então a bacia da cabeça. Abraçou-a como a um filho. Dilatado, o abdômen empatava um contato mais íntimo.

Com esforço, a mulher chegou à beira d’água. Colocou a bacia na margem e retirou do sutiã o sabão feito da gordura das muitas galinhas abatidas nos últimos dias. Dolores tinha fome. “Só depois de lavar as roupas”. Sentou os quadris desajeitados sobre uma das pedras cobertas pelo lodo e começou a molhar as peças, uma a uma, com uma delicadeza jamais creditada a pessoas daquele porte.

A lavadeira não sabia cantar, por isso seu trabalho era mudo. Ouvia-se apenas o som das batidas das roupas nas pedras, da água e dos pássaros a reclamar do calor. Terminado o serviço, Dolores levantou-se com cuidado, pondo as mãos nas costas doloridas. Com a bacia posicionada na cabeça, escorregou, rompendo o cabresto das sandálias carcomidas pelo sol. Dolores caiu, deixando ir-se embora pelo riacho toda a roupa limpa, lavada. Ainda sem fôlego, mais uma vez se levantou, deixando para trás todo o peso do mundo.

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.a piada.

Publicado: 10 de maio de 2011 em Uncategorized

-tô azul de fome, cara. vamos ali na lanchonete pra comer alguma coisa.

-tá certo. mas vamos no supermercado que é mais barato, beleza?

-… (cara de puto)

Douglas e Eduardo param em frente ao Hiperbompreço da Pontes Vieira. vão direto para a lanchonete. Douglas pede  um pedaço de queijo roquefort, porque ele aprecia o nome e se sente alguém melhor ao degustar tal iguaria. para acompanhar, uma Coca-cola zero, porque o design preto é mais chic, além do que, não engorda. Eduardo escolhe uma coxinha de frango gordurosa. é mais barato e “enche” mais. um “buchinho” nunca fez mal a niguém. nada para acompanhar. “pra quê? só pra gastar dinheiro?”

os amigos se sentam em uma das mesas e começam a conversar aqueles causos de “macho alfa”. mulher, cerveja e futebol. o carro e tal. marina é gostosa. quem sabe não rola uma bebedeira no sábado? depois que o “vozão” vencer, claro. claro que Eduardo falava isso tudo sozinho, porque Douglas não frequentava esse tipo de ambiente nem compartilhava desses hábitos “primitivos”.

uma jovem mulher adentra o recinto. loura, alta, magra e elegante, ou seja, cheia da grana.

– que diva!

– que gata!

a mulher se senta próximo e pede uma salada de frutas SEM LEITE CONDENSADO. começa a olhar fixamente para Eduardo. sentindo o olhar dela queimando sua nuca, ele se engasga com a coxinha e bebe um gole do refrigerante do amigo, que fica puto por conta da marca oleosa deixada na lata.

.ela se levanta, sorri e para do lado de eduardo, já recomposto.

-boa tarde.

-boa tarde – responde Douglas. Eduardo está mudo.

-pergunta aí pro teu amigo se ele tá afim de dar uma volta no meu peugeot.

-diz pra dona que eu tenho de estudar, porque tem prova amanhã.

a “dona” dá uma rabissaca e vai embra puta. Douglas, mais puto ainda, diz pro amigo:

-mas tu é imbecil mesmo, hein?

– que foi?

– um mulherão desses danto em cima de ti e tu diz que vai estudar. que se dane!

– justamente, cara. uma mulher dessas dando em cima de mim? só pode ser piada. além do mais, tu sabe que eu sou tímido…

.ps: em homenagem a Erlon Coelho.

.da relatividade dos princípios.

Publicado: 2 de maio de 2011 em Uncategorized

Pra quê roupas? Desde que nasci ando pelado. Ninguém liga. Estou bem assim, e fico aliviado quando me dou conta de que posso permanecer completamente nu e esparramado na grama da praça num dia de sol. Fecho os olhos, abro a boca e deixo o vento bater na cara.

Sou feliz. É fácil ser feliz. Se arranjo o que comer, ataco tudo fazendo a maior festa; rápido como se aquela fosse a última refeição da minha vida. Adoro carne (deve de ser porque é uma raridade consegui-la). Não estou nem aí pro meu coração ou pro acúmulo de gordura na região abdominal. Sempre procurei agradar mais ao meu estômago. Ele me mantém vivo.

Durmo pouco. Gosto de aproveitar a vida. Não uso relógio. Nem sei que horas são agora, muito menos o ano ou o dia. É bom não ser refém do tempo. Minha rotina não está precisamente descrita em uma agenda. Faço o que me der na cabeça. Não tenho planos, nem preciso deles. Meu único plano é sobreviver e aproveitar meu tempo, que é bem mais curto do que o da maioria das pessoas. Por isso não me angustio com o que está por vir.

Já me deram vários nomes por aí. Nunca me importei com nenhum deles. Basta me chamar que eu vou. Me apaixonei incontáveis vezes, mas nunca senti ciúmes. Saímos, me diverti e fomos embora. Pra quê melhor? Acho que tenho algumas dezenas de descendentes por aí. Nada de cobranças ou pensar no que vem depois.

Cresci sozinho pelas ruas, mas nunca senti raiva disso. Na verdade, tenho um ótimo humor e sempre estou rindo. Pareço até um bobão. A não ser quando tentam roubar minha comida. É a única coisa que me tira do sério. Não invadam minha área.

Certa vez,  morei numa casa. Eu gostava deles. Levei umas porradas, mas não sabia direito porque. Acho que as pessoas não gostam que a gente se suje. São meio paranóicas com limpeza. Que loucura! Eu só ficava triste quando me deixavam sozinho em casa. A solidão é ruim. Mas, quando eles chegavam, eu ficava feliz, mesmo depois das porradas. Saber expressar sentimentos é fácil para mim. Para eles não, e eu me contentava apenas com um cafuné na barriga.

Nunca parei pra pensar sobre a minha aparência. Acho que a maioria das pessoas não me acha lindo, mas minha autoestima é boa. Me acho um cara bonitão. Um pouco magro, vá lá, mas tenho meus dotes. Corro rápido e meu sorriso é bem amigável. É o que importa.

O cheiro pra mim é uma coisa essencial. Cheiro tudo. Tudinho mesmo. O cheiro que mais gosto é o de comida, claro; do frango do seu Assis, da batata frita gordurosa da esquina. Mas também sei apreciar “bons” perfumes. Tem gente que cheira bem pra caramba, como aquela garota da saia azul. Pô, foi a primeira vez que senti vontade de seguir alguém até em casa, mas fiquei na minha. Ela não era pra mim.

Não sei se existe essa coisa de Deus. As pessoas se importam muito com isso, é verdade. Eu não. Nunca parei pra refletir sobre. Na verdade, nunca paro pra refletir. É perda de tempo. Se Ele existe, sou grato. Adoro a vida. Essas casas que costumam construir para… como é mesmo? Ah, orar. São mesmo muito loucas. As pessoas nem se conhecem, se juntam durante uma hora ou um pouco mais. Nem olham pra cara umas das outras. Ficam cantando, falando umas coisas absurdas, e se vão. Continuam sem saber com quem compartilharam esses momentos. As pessoas realmente são estranhas. Prefiro viver a vida que Deus (se ele existir) me deu, da melhor forma possível. Acho que essa uma forma digna de se mostrar agradecido.

Engraçado como as pessoas se prendem a certas coisas. Criam normas em suas cabeças e se proíbem de fazer um monte de coisa. Tudo é errado e feio.  Nada pode. Ninguém tem o direito de fazer o que bem entender com a própria vida.  Hesitam constantemente. Sempre que mandavam em mim,  nunca obedecia. Só quando me davam comida, claro. Acho que foi por isso que me mandaram embora.

Não tenho medo da morte. Não sei quando ela vem, nem me interessa saber. Para mim, morrer parece uma coisa muito natural. Vi meus pais morrerem. Não chorei. Apenas olhei durante um tempo e fui embora. Para que ficar ali chorando em cima de um corpo inerte? As pessoas gostam disso. Passam um tempão sofrendo por quem morreu. Pra quê? Ora, eles viveram a vida  ela devia de ter sido vivida. Boa ou má, eles tiveram uma oportunidade. Quando chegar a minha vez, estarei lá. Pronto como sempre estive. Estou satisfeito com o que sou. Mesmo sendo um cão, tenho meus princípios.

.a menina das cartas.

Publicado: 26 de abril de 2011 em Uncategorized

minhas costas doíam. acho que naquela época eu já estava meio velho para festas de carnaval. além disso, vodca nunca me caiu bem. sentia-a como um líquido quente e viscoso queimando as artérias. no entanto, não havia embriaguez.

sentamos na ladeira de calçamento, e ela segurou minha mão. foi aí que me dei conta de que não sabia seu nome e nem mesmo como havia parado ali do meu lado. tive a sensação de que a vodca estava comendo meu cérebro.

o nome dela era joana, e sua mão era tão miúda e gorducha quanto a de uma criança. gostei da textura. gostei do toque dela. apesar de não conseguir distinguir a cor dos olhos de joana, vi que brilhavam contra a luz do poste. eram tão penetrantes que me davam calafrios por toda a espinha. ri alto.

quem diria que aquela sexta-feira de carnaval seria diferente das outras tantas pelas quais eu havia passad0. algumas bêbado, noutras sóbrio, nenhuma realmente feliz após aquelas loucuras súbitas que a maioria comete. mas nesse ano algo havia mudado. era a presença dela ali. uma presença que dizia: perigo. era por isso que eu gostava. acho que nunca estive em perigo antes e aquela sensação me dava a certeza de que eu não era  refém do tempo. meus dias não eram todos iguais e eu sentiria uma pequena vertigem ao imaginar o que poderia me acontecer no próximo instante.

calma. ela não tinha uma arma. ninguém nos atropelou nem fizemos sexo no meio da rua. apenas trocamos algumas palavras na madrugada. palavras que, mesmo depois de tanto tempo, ainda guardo intactas na memória.

joana me encarava com seriedade, mas seus lábios sorriam. no início, ficamos calados na maior parte do tempo. não perguntei a idade dela. tive medo, pois, com certeza, devia ter pelo menos uns 15 anos a menos que eu. preferi me deixar envolver pela vibração de sua juventude e esquecer que eu talvez tivesse idade para ser seu pai.

era linda. desconsertantemente linda. nem de mais, nem de menos. cada coisa no lugar. linda como uma jovem mulher tem de ser. mas, não, não. não me apaixonei à primeira vista, nem a pedi em casamento. não queria descobrir muito sobre seu passado. nada de falarmos sobre nossas vidas. desejava apenas conservar o mistério que nos unia.

hoje, olhando bem de perto, como uma criança que analisa com cuidado a intensa atividade de um formigueiro, começo a me dar conta de uma certa conspiração universal. cada gesto, por mais banal que possa parrecer, nos leva ao encontro de pessoas, oportunidades e prazeres que irão marcar as nossas vidas para todo o sempre. 

.foi numa dessas situações banais em que conheci joana, a moça das cartas. tudo bem que isso soou como o título de um romance americano brega e piegas. talvez seja. talvez todas as nossas vidas dêem um belo de um best seller adolescente. é triste, mas não adianta questionar. cabe a nós preenchermos as páginas que nos foram disponibilizadas.

.digo a vocês que pouco que sei (e que julgo necessário saber) sobre joana, é que ela adorava receber cartas. da última vez em que nos vimos, ali mesmo na ladeira, a moça, que eu jamais consegui distinguir a idade exata, me pediu um único favor:

– escreva-me cartas. não quero e-mails nem telefonemas. quero cartas escritas à mão. sempre quis receber cartas confecionadas com o bom e velho papel. nele a letra familiar de alguém que por acaso ou não, lembrou-se de mim. esperarei o som da voz daquele que anuncia: ‘carta para você!’, pois gosto de, desde já brincar de detetive, tentando descobrir quem haveria de ter me enviado tão belo gesto e o que haveria de ter escrito lá. seria uma carta de amor? o anúncio da morte de alguém querido? quem sabe fosse um convite para um baile. não, não. isso não é um conto de fadas. então, escreva o que tiver vontade. conte-me de você; o que terá feito; por onde terá andado e quem haverá de ter conhecido.  sabe… antes de ler, passarei a mão de leve no papel, sentindo o baixo relevo que a força de suas palavras deixarão impressas. gosto de cartas porque fica presa nelas um pouco da alma de quem as escreve. terei a certeza de que você as escreveu, pois notarei a bolinha gorducha em cima de seus erres e a escoliose de seus bês, dês e tês. as caligrafias, você sabe, são como digitais, e eu gosto de ter a certeza de que você dedicou uma pequena parte de seu tempo pensando em mim.

.acho que nunca entendi muito bem aquela garota. se conhecia minha caligrafia, deveria saber muito mais de mim do que eu supunha.  parecia-me que nunca estava no tempo certo das coisas. às vezes um pouco à frente, como se sua alma fosse mais velha que o corpo. noutras, estava bem atrás, como se estivesse presa a um passado distante que nem mesmo ela conhecia, vivendo como uma criança que jamais pôde ser.

.joana não tinha aquele viço juvenil. não era dotada da despreocupação típica das adolescentes. não. ela jamais conseguiu parecer à vontade no mundo, e isso a privava de algo o qual considerava extremamente precioso: a liberdade. joana queria ser livre, mas não sabia como. queria tirar a trava que prendia-lhe ao chão e apenas se deixar levar. por isso, pedia a todos que lhe escrevessem cartas, contado-lhe de vidas que não eram a sua. no entanto, era como se, por breves instantes, aqueles lugares e pessoas fossem ‘seus’.

.de repente, as palavras de joana me deixavam tonto. finalmente a embriaguez tomou conta da minha mente. apaguei. desliguei-me da tomada do mundo. quando acordei, ela já não estava mais lá. só o cachorro a lamber-me a cara em contato com a pedra fria.

.depois do avariamento inicial, dei-me novamente conta de minha existência. repassei com cuidado quem era, de onde vinha e porque estava ali. graças a deus (ou não), ainda lembrava de tudo. lembrei de joana. percebi, então, o envelope branco. era uma carta. a primeira das muitas cartas que trocaríamos dali pra frente…

.retrato do que era felicidade.

Publicado: 23 de abril de 2011 em Uncategorized

Fazer fotografias é uma tradição estranha. De repente, flagramos pessoas, objetos, lugares. Brincamos de eternizar momentos, no entanto, esquecemos de que não somos Deus. O tempo passa e com ele faz um furdunço de nossas vidas. É apenas quando, depois de um certo tempo, observamos tais imagens que percebemos que já não fazem mais sentido algum.

O retrato do casamento deles (amarelado pelo tempo), para quem não soubesse o que seria do casal, fazia pensar que tinham tudo para serem felizes. É triste se dar conta de que estavam errados. Se aqueles dois soubessem, teriam o feito? Teriam atirado suas vidas em um futuro com apenas 50% de chance de dar certo? Deu certo? O que se entende por dar certo?

Eles pareciam felizes. Começo então a lembrar do decorrer dos últimos 30 anos. Foram-se os sorrisos. A mão pousada sobre o ombro do noivo. O olhar confiante. O que sobrou foram apenas mágoas, traições, duras palavras e 3 filhos em comum. Três criaturas atormentadas que, dificilmente, acreditarão no amor. Pelo menos, não desses das fotos com noivos de branco, buquês, bolos confeitados, brinde com champagne e convidados de olhares invejosos.

Corro para buscar minhas fotografias antigas. De repente me deu vontade de ter  um passado ao qual me agarrar. Um passado que pudesse dizer que sim, um dia aqui habitou uma criança inocentemente feliz.

As bochechas rechonchudas. Nós na praia, quando eu ainda podia fazer topless sem correr o risco de ser presa. Eu parecia amar meu pai, pois ele me dava “um cheiro no cangote” e eu gargalhava, ainda sem dente. Eu gostava da voz da mamãe. O que mudou? Céus, o que mudou aqui dentro?

Lá estavam os dois no parque. Ela sentada na grama. “Perninhas de índio”. Ele segurava a mão dela, com a cabeça ainda em seu colo. Sorriam. Ambos sorriam e se olhavam. Não, não olhavam para a câmera denunciando alguém nos bastidores a dizer: “olha para a sua irmãzinha e segura a mãozinha dela”. Eles se amavam. Eles eram espontaneamente felizes.

A gente tomava sorvete. O dela de morango, porque ela sempre gostou de cor-de-rosa. O meu era de chocolate e o dele também. Nesse tempo a gente não ligava. Ninguém queria saber se nos chamariam de gordinhos ou se todo aquele sorvete teria um preço no futuro. Eu fazia careta de propósito e o meu irmão colocava chifres nela.  A gente estava contente.

Hoje não há mais fotografias. Não há mais encontros. Apenas os obrigatórios. Pergunto-me se não há mais felicidade ou amor. Se há, esconderam-se, pois não mais consigo percebê-los. Vai ver cresci e meus olhos já não se dão conta dessas coisas. Apenas ficam assim, rasos d’água ao cutucar o passado. Como é triste crescer. Como são tristes os adultos. O que fizeram conosco? Digam-me, por favor, onde estão aquelas pessoas das fotografias?

é de peixe(s)

Publicado: 16 de abril de 2011 em Uncategorized

injeção intravenosa. intoxicação por substância entorpecente. tentativa de suicídio. estado de choque seguido de alucinações permanentes. atitudes impulsivas e autodestrutivas.

quem ele pensa que é pra escrever tudo aquilo sobre mim? um prontuário médico, ou seja, nada mais do que um monte de papel cheio de conclusões feitas por alguém que mal sabe quem sou. ora! sou perfeitamente normal! quem nunca sentiu vontade de morrer pelo menos uma vez na vida? na verdade, agora me sinto com vontade de matar. matar aquele desgraçado!

será que alguém pode me desamarrar? não vou me matar, porra! só quero fumar um cigarro. só um! sabia que todo mundo tem o direito de estragar a própria vida? não preciso de calmantes! eu tô calma. perfeitamente calma. uma lady, não vêem? n-aaaaão… não! será que tenho pelo menos o direito de falar com meu advogado? isso daqui é um desacato! estão me prendendo, tirando a minha liberdade! não fiz mal a ninguém, a não ser a mim mesma. será que não pode? as pessoas hoje não podem nem querer morrer! vou te contar uma coisa dessas!

tá bom! tá bom. já tô fora de perigo. por que preciso continuar amarrada aqui? já posso ir pra casa, não? meu gato tá sozinho. preciso dar comida pra ele.  não. é sério! não ria. por acaso eu sou alguma palhaça? olha, vou confessar. ontem à noite eu queria muito mesmo  morrer, mas sabe que eu mudei de ideia? tô com uma puta de uma vontade de te dar um tiro no meio das fuças! pensa que é melhor do que eu só porque tá ai, todo de branco, mandando e desmandando. exercendo o seu poder com essas pilulazinhas de merda… ah, vá se fuder!

você tá puto comigo mesmo, né! tá. eu não falo mais palavrão. minha mãe sempre dizia que não era coisa se menina direita. e eu sou muito direita. dá pro senhor ver, né? (risos). ah, doutor! que coisa maluca, vamos combinar! eu aqui, querendo morrer. o senhor louco pra se livrar de mim. não aguenta mais… não seria melhor ter me deixado fazer o que eu queria? praticar uma eutanásia, quem sabe… e aí? que acha? tá. eu paro.tá, tá. já parei. pa-rei…

um traguinho. só um traguinho, doutor… porra, doutor! o que custa? o que vai adiantar me manter aqui? daqui a pouco vou embora, como uma pessoa “normal” que sou e faço tudo de novo. pra que adiar? morrer, doutor… uma coisinha assim tão simples. não vai encomodar ninguém… prometo que vai ser rápido!

e aí? pensou na minha proposta? pensou ou não pensou? por que quero morrer? ora! todos vamos! eu só tenho mais pressa que o resto. sempre fui muito impaciente com as coisas, sabe como é.

tá bom. acabou a besteira. não. agora é tarde demais. nem adianta insistir. pode me dar esse remediozinho aí que eu vou dormir. amanhã o senhor me acorda, tá legal? ah, e avisa pra minha mãe dar comida pro bóris. ele deve estar morrendo de fome. e ele só come ração de peixe, ok? n-ada de car…ne… é de…peeeii…xe… dou…torrrr….

carta para ti

Publicado: 13 de abril de 2011 em Uncategorized

Houve um tempo em que te odiei, sabia? Odiei porque não suportava esse teu jeito controlador e essa tua voz manipuladora de quem quer gritar para o mundo a própria existência. Sempre me incomodei com o fato de pareceres sempre mais experiente do que eu. Tinha raiva dessa tua manina de me desconsertares, porque sempre acabava me sentindo uma idiota. E sabes que não tem coisa pior do que se sentir idiota… O que mais me deixava possessa (e ainda me deixa, permita-me confessar) era quando simplesmente fingias não me escutar, deixando-me falar sozinha. E eu sei que continuarás fazendo isso. Mas não te preocupes, já me acostumei com a ideia, pois, no fundo, sabe porque esse ódio? Era simplesmente por não te entender.

Há momentos em que sinto ciúmes de ti. Não falo, claro. Tu sabes que existem coisas que guardo só para mim. Vai ver sou mesmo meio egoísta. É que tens tantos amigos… Mas, com o tempo, acabei aprendendo que cada um deles tem o seu lugar, e, aos poucos, já garanti o meu.

Já tive medo de ti… Não porque fosses me fazer algum mal. Na verdade, tive medo do que pensarias de mim ou se, por algum motivo, me deixarias de lado, como quem enjoa de uma boneca. Fugia de ti. Ainda bem que logo me dei conta de que, para ti, amigos não são brinquedos. É por isso que, de vez em quando, sofres.

Sinto constantemente saudade da tua presença. Incrível como, de repente, já não posso deixar de te incluir nas minhas conversas ou nos meus planos. Sempre acabo tocando no teu nome. Sempre… E se viajas então… Fico morrendo de curiosidade de me enteirar de todas as novidades que certamente trarás para alegrar teus amigos. Porque tens uma inquietação aí dentro que não te deixas parada nunca.

Sinto-me feliz quando conversamos e quando me ofereces aquele abraço “de com força” que só tu sabes como fazer. Por isso, apesar de me dares uns bons puxões de orelha, falando-me verdades que nem posso contestar, ainda te amo. Engraçado como tu, assim como uma mãe, alerta-me, e eu, como uma filha, não te obedeço e sempre quebro a cara. Tu, que tem menos idade que eu… No entanto, não te amo como filha. Não, não. Nem como irmã, prima, amiga, seja lá o que for. É uma coisa estranha, como se, por sermos  opostos, precisasse de ti para seres um complemento meu.

Eu, que sou pura subjetividade e tu a objetividade em pessoa. Sabes o que quer, eu nunca soube. Sou insegura e tu tão dona de si. Eres puro fogo e eu tão difusa quanto o ar. A timidez tomava conta de mim, mas tu sempre fostes expansiva. Gosto de gente assim. Mas, sabes que  consegues enganar um bocado de gente,  não a mim. Porque esse agressividade que tens diante da vida é apenas uma máscara que esconde uma menina querendo atenção e cuidado. De repente, sinto uma enorme vontade de cuidar de ti, assim como fazes comigo quando fico pra baixo.

Estive pensando… Nunca me sinto triste quando estou contigo. Acho que despertas meu lado bom. Meu lado de menina atrevida, brincalhona. Em alguns momentos, invejei esse teu jeito de ser. Queria ter um pouco de ti, mas cada um é como é, e o melhor disso tudo é que a gente aprendeu a se aceitar assim, sem ter de mudar nada. Sem ter de fingir.

 Nunca concordei contigo em tudo. Nunca mesmo. A gente é diferente, tu sabes. Entretanto, o tempo vai nos moldando. Nos abre, aos poucos, a mente. Hoje significas tanto para mim… E isso é unicamente porque passei a entender teu jeito, tuas ações. Viraste minha companheira de aventuras, aquela com quem compartilho segredos, pensamentos e planos.

O melhor disso tudo é que foi de repente, assim sem querer e do mesmo modo com que escrevo essa carta: sem mais nem menos. Sem data importante, mas apenas porque me deu vontade. E eu sei que, assim que a leres, saberás que é para ti, nem é preciso que diga teu nome.

Ps.: Ah, e nunca me entendas mal. É que eu sou uma aquariana meio distraída, que às vezes apenas se esquece, por viver no mundo da lua, de comparecer mais a esse mundo real…

.complexo de édipo.

Publicado: 6 de abril de 2011 em Uncategorized

– pai, onde o senhor encontrou a mamãe?

– acho que foi numa festa. num baile de carnaval.

– droga.

– que foi?

– é que a festa já terminou.

– e daí?

– e daí que eu não vou poder mais ir lá e encontrar uma mulher que nem a mamãe.

– na verdade, o lugar não importa muito. existiam pelo menos uma centena de mulheres naquela festa. todas diferentes umas das outras. lembro que eu estava vestido de pirata e ela fantasiada de havaiana.

– e como escolheu a mamãe? ela era a mais bonita? dançava melhor?

– bem, quem escolheu, na verdade, foi ela. eu estava bêbado demais. todo mundo parecia muito lindo.

– e o que ela viu no senhor?

– não sei. tá aí uma coisa que me intriga…

-realmente…

– como assim, re-al-men-te?

– pai, com o perdão da palavra, mas é que o senhor é um banana, né?

– eu nunca te disse pra não ser sincero demais com as pessoas?

– eu sei, mas acho que a mamãe merecia coisa melhor.

– pô, garoto! eu ainda sou teu pai. ainda posso te dar uma surra, sabia?

– sabe de uma coisa, pai?

– o quê?

– acho que não quero mais uma mulher como a mamãe.

– por causa de quê?

– nunca pensei que ela fosse tão burra a ponto de escolher um cara como o senhor.

– pois é. nem eu.

– é, pai. o senhor é um incompetente mesmo.

– calma, filho. um dia alguém vai te achar por aí e fazer de você um banana feito eu, para, aos 42, o porcariazinhado seu filho te jogar na cara a merda que você fez.

-pai, você é gay?

-… s-sim.

-eu sabia…

.morte anunciada: foda-se!

Publicado: 30 de março de 2011 em Uncategorized

(reflexões de um pré-morto)

.vou morrer em breve. deram-me, no máximo (se eu tiver sorte), dois meses. não é cômico pensar em ter SORTE numa hora dessas? sempre me disseram que a morte era a única certeza da vida. outra contradição. a vida é cheia delas.

.minha primeira reação foi esculhambar aquele médico filha da puta, mas depois percebi que de nada adiantaria, já que a culpa não era dele. só estava fazendo o papel de todo médico: tentar me salvar e, em caso negativo, servir de porta-voz para uma morte anunciada.

.não tinha como brigar com deus. a gente já estava nessa a um certo tempo. nem blasfemei nem nada. jamais poderia alegar que  minha vida era de extrema importância para os assuntos divinos aqui na terra. eu, que nem mesmo me dava ao trabalho de dar esmolas aos mendigos a fim de salvar o que restasse de minha alma (se eu realmente tiver uma, é claro).

.pô! eu nem plantei uma árvore nem escrevi um livro, nem nada. o mais próximo que eu cheguei do que chamam de felicidade foi quase ter um filho. nem isso deu. tive problema de caxumba quando era moleque. aí, já viu. nada de filhos. vai ver, foi melhor assim.

.a única mulher com a qual quis juntar meus trapos foi a lúcia, mas ela disse que era impossível conviver com um cara feito eu, cheio de manias (ela odeia o modo como eu me visto e deixo tudo parecendo um bordel de quinta). passamos 3 anos juntos. olhando bem, superei as expectativas, não acha? depois ela foi embora, e eu tive de me contentar com prostitutas. a gente sente necessidades de vez em quando. pelo menos eu podia deixar as coisas feito um bordel (trocadilho besta, eu sei).

.não falei do que vou morrer? ah, sim. pois é… câncer retal com metástase em grande parte do sistema digestivo. é. pode frescar. vou morrer pelo cu. bem propício para um merda como eu. certo. estou mesmo na fase de depressão, mas isso tem que passar rápido, porque estou pensando em aproveitar, sabe? aquela coisa de carpe diem. afinal, ainda tenho uma vida pra viver em 2 meses. e olha que não fiz porra nenhuma durante 47 anos! é uma meta e tanto, temos de convir!

.nasci de parto normal na cidade de Fortaleza, Ce. minha mãe já teve ódio de mim desde esse momento. ela sempre reclamou que eu tinha a cabeça grande demais. que culpa tenho eu? meu pai morreu quando eu tinha 17 anos. cirrose hepática. meu pai era um bebum e a gente não tinha muito contato. ele era mais íntimo da cachaça. passava 24 horas com ela debaixo do sovaco. aposentou-se precocemente e a gente vivia de uma minxaria. minha mãe lavava roupa pra fora. isso a deixava mais puta ainda. tenho 9 irmãos. fui embora de casa aos 18. não fiz faculdade. terminei o colegial aos trancos e barrancos. queria ser delegado. acabei sendo preso por conta de 3 baseados no bolso. me soltaram uma semana depois. enquanto tentava roubar comida, um velho (não sei por conta de quê) foi a com a minha cara e me ofereceu um emprego no supermercado dele. topei.  vivia que nem um cachorro vira-lata. tava com fome e tal… e tô lá até hoje. agora sou gerente, pelo menos.

.não sei por que tô contanto isso. não tem mais nada a ver. deve de ser aquela história que dizem sobre quando vamos morrer e a gente vê a vida toda passar na nossa frente. e pelo que pude notar, não tenho muito do que me orgulhar. o pouco que fiz foi ainda uma grande merda. poderia concorrer ao “MeRdíocre do Século”. pelo menos tenho senso de humor! é uma qualidade, ora bolas! as garotas geralmente gostam. a lúcia não.

.que se foda a lúcia! tenho que aproveitar a vida. ou o resto dela, seja como for. sugestões? tipo… é uma droga pensar no tanto de coisa que eu não fiz! em todas as decisões erradas que eu tomei e tudo que perdi. eu poderia ter sido outra coisa.  na verdade, eu poderia ter sido uma pessoa, de fato.

.sabe o que me vem à cabeça agora? E SE tivesse sido tudo diferente? SE meu nome não fosse adamastor, e sim rodrigo? os pivetes não teriam tirado tanto sarro de mim na escola  e, provavelmente eu teria beijado um número bem maior de garotas. ah, SE minha cabeça não fosse grande… mamãe teria me amado! SE eu tivesse me esforçado e feito uma faculdade… poderia ter sido delegado, até juiz, quem sabe. SE eu fosse mais limpinho e arrumado, lúcia teria ficado comigo? a gente poderia ter adotado um filho. SE eu tivesse dado esmolas àquele velhinho, deus poderia ter gostado só um tiquinho assim de mim… ah… FODA-SE!

.chega de lamentações! sabe o que vou fazer? VIVER! vou pegar o cartão de crédito, comprar passagens para o caribe. tostar no sol sem me preocupar com câncer de pele, comer todas as comidas gordurosas, salgadas e doces (ou seja, com sabor de comida) sem culpa. vou falar para todas as mulheres que eu as amo e vou fazer sexo adoidado. vou até experimentar dar o cu, se der vontade. vou experimentar ópio, vou fazer um bocado de tatuagem. vou dançar nu, no meio da rua. vou tomar banho de chuva descalço sem ter medo de resfriado. vou gastar o dinheiro que tenho e o que não tenho também ( ninguém vai poder cobrar mesmo). vou passar um tempo morando na praia. vou a um templo budista meditar, depois vou a uma igreja dar uma banana pra um padre qualquer. vou mandar uma carta para todos os meus dissidentes afetivos com apenas uma pequena frase: vá se fuder seu grande filho da puta! espero morrer durante uma festa, bebendo com desconhecidos e mangando da vida que tive. eu queria ser cremado, mas posso dizer que não estou nem aí com o que vão fazer do meu corpo. vou tá morto mesmo. problema o de quem fica.

.sabe que estou começando a me animar? ter a morte anunciada, tem lá suas vantagens. já pensou se eu morresse daqui a pouco, atropelado por um ônibus ao cruzar a avenida treze de maio? nem chance de tentar fazer alguma coisa eu teria.  vou morrer sabendo mais ou menos quando, e poderei aproveitar um pouco. devo ser grato por isso? ah, FODA-SE.

.a não-música.

Publicado: 25 de março de 2011 em Uncategorized

Chovia em fios finos, porém suficientes para cobrir o asfalto por um espelho d’água. As luzes dos carros no breu da noite refletiam-se nele produzindo um efeito luminoso fascinante, apesar de artificial. Sempre achei a noite bonita. Não que o dia não possua seus encantos, mas é que à noite, todos os gatos são pardos. A mágica traz certos mistérios que tornam o mundo muito mais instigante.

Com o vidro do carro aberto, eu podia sentir a brisa fria da noite chuvosa. Fechava os olhos e o vento leve soprava em meus cabelos e tocava minhas bochechas. Apesar de triste, me sentia viva. A dor tem esse poder de nos dar a certeza de que estamos vivos.

O pior da tristeza não era o fato de doer, mas sim de não se entender bem o seu motivo. Assim como o tempo, viver me trazia uma certa angústia. Tinha medo de deixar as horas passarem entre os dedos e de não saber o que fazer com a vida. Queria tantas coisas! Tinha tantos sonhos e tão pouco tempo! O ruim de se ter sonhos demais é a frustração de não poder realizá-los todos. E eu já sabia disso desde muito cedo.

Quando o ouvi tocar, foi impossível conter as lágrimas. Sempre fui sensível demais à música. O piano dançava em minha mente. As mãos sobre as teclas, a boca fechada, os olhos cerrados e o coração dilacerado do pianista. Eu chorava e ele sentia. Não me olhava porque me via nas teclas, nas notas, nas partículas encarregadas de transportar o som de nossas almas atormentadas.

O toque final. O som final. Agudo, firme, definitivo como foi o que vivemos mesmo sem termos estado lá.  Não segurei sua mão, nem ele a minha. Jamais vi seus antepassados. Nem mesmo sabe quem sou, o pianista. No entanto, me conhece, mais que a mim mesma, e eu o invejo por isso.

As cortinas se fecham. Meus olhos, agora fechados sob a fina chuva de abril, lembram bem. Rasos d’água. Sempre tive essa mania de chorar no escuro entre a multidão entretida pelos espetáculos que tentavam reproduzir a vida. Será que alguém me viu? Sim. Ele viu. Ou pelo menos sentiu, pois eu estava lá, no piano, na música, nos olhos fechados do pianista.

Da dor, agora sei bem o motivo. Foi pela não-vivência da vida. Pela pré-destruição do não construído, pela morte do que nunca existiu, pelo fim do que nunca teve um começo. Chorei por nós, que nunca nos conhecemos. Sofri diante da possibilidade de que isso nem mesmo chegasse a ocorrer. O que teríamos feito nós? Como seria nosso primeiro encontro? O que seria dito?Jamais se saberá. Porque a música acabou, e o pianista desceu do palco.