Arquivo de julho, 2012

envelhecimento reverso

Publicado: 11 de julho de 2012 em Uncategorized

Bem no canto, sentada junto às grandes formações rochosas banhadas por água salgada, areia e algas, uma menina punha as duas mãos sobre as coxas e mirava o fotógrafo. Fazia pose, assim como o homem de cabelos loiros e lisos, alto como um farol. Homem que, a meu ver, só poderia ser eu.

Embora a fotografia fosse em preto e branco, podia-se notar que minha pele estava queimada de sol. Só de pensar sentia o ardor nas bochechas, sempre tão brancas. Permanecia parado ao lado da mocinha de cabelos castanhos, presos num coque desarrumado pela brisa do mar. A roupa de banho era escura, com bolinhas alvas como a pele dela. Os óculos de sol adornavam a cabecinha inclinada.

Pelo contraste da luz, arrisco dizer que não passava das três horas da tarde. O mar cintilava e as nossas sombras insistiam duras na areia. Era minha namorada, com certeza o era. Não havia mãos entrelaçadas, mas ali se podia notar um olhar suspeito. Meu olhar acinzentado denunciava o amante.

Não faço ideia do contexto. Talvez nossas férias, um feriado na casa de praia de um tio meu. Ou dela, quem sabe. Hoje tudo não passava de suposições. Ângela? Eduarda? Carmen? Beatriz? Catarina. Tinha cara de Catarina. Suposições. Já disse.

Não lembrar a própria vida é inicialmente algo assustador. Agora, sentado no canto da cama de um quarto estranho, na casa de um homem desconhecido que diz ser meu genro, encaro o fato de forma mais natural e até já se tornou passatempo essa brincadeira de adivinhar o passado.

Na verdade, a possibilidade de escolher ser o que quiser, ou mesmo ser alguém novo a cada dia, é reconfortante. Dificilmente escolho ter cometido erros. Só não resisto à ideia de ter traído Catarina, minha namorada da foto, com a Susana, a mulher que me vem visitar de vez em quando.

Susana é bem mais velha que Catarina, mas conserva uma beleza escondida entre as poucas rugas faciais. Veste-se de maneira modesta e elegante e cheira à manga rosa. Os cabelos são curtos, acinzentados. Gosto quando me traz torta de maçã e diz que é a minha sobremesa favorita.

Embora me olhe com frequência no espelho do banheiro e tenha a certeza de que sou um homem de idade avançada, tenho a sensação de um envelhecimento reverso. Aqui dentro, é como se ficasse cada vez mais moço e sábio. Ora, e não são os jovens quem dominam a verdadeira arte de viver?

Dia desses, Susana ligou a televisão para mim. Ela estava sentada do meu lado. Não resisti e passei a mão na coxa esquerda dela. A mulher pareceu se irritar. Então sorri e ela caiu na gargalhada. Corei. Assistimos a um filme. Fiquei fascinado. Um super-herói vestido com as cores da bandeira norte-americana voando sobre os céus de uma cidade imaginária. Susana disse que ele se parecia comigo, com a diferença de que eu era loiro. Decidi que iria me vestir igualzinho ao Super-homem.

Pedi à Susana, com jeito. No final da semana, ela me trouxe um embrulho caprichado. Abri com uma ansiedade quase infantil. Lá estava ela. Azul, vermelha, brilhante. Corri para o banheiro em num lampejo de pudor. Vesti-me com certa dificuldade, pois a malha era demasiadamente colada. Saí meio desajeitado. Susana não conteve um sorriso. Ora, eu era um cara de mais de 70 anos dentro de uma fantasia brilhante e apertada.

Old Superman de Michael Turner

O corpo esguio da foto não mais existia. Porém, eu continuava sendo o mesmo homem, ainda que não recordasse bem dos tempos mais antigos. Aproximei-me da senhora que me observava e a envolvi em meus braços flácidos. Apalpei cada pneuzinho nas laterais das costas curvadas. Senti cheiro de manga e dei-lhe um beijo nas bochechas levemente caídas.

Por um instante ela me era tão familiar que poderíamos ter tido um filho juntos. Não havia tristeza em ser um homem sem passado, quando me via com um presente tão cheio de fulgor. Possuía o vigor e a vontade de viver da mais tenra idade. Seria capaz até me jogar da janela com a ideia tresloucada de poder voar.

A empregada bateu na porta, trazendo um mingau de aveia para o jantar. Olhou sem surpresa para o meu traje novo, colocou o prato em cima da mesa e saiu. Sentei na cama. Susana continuou de pé, com aqueles olhos esperançosos de que eu pudesse me lembrar dela nos tempos em que seu corpo era firme e sensual.

Não toquei no mingau. Odeio mingau, mas a empregada insistia em trazer-me. Permaneceu lá, intocado até atrair moscas. Passamos mais de 3 horas sentados um ao lado do outro; eu e Susana. Nem sequer uma palavra, um suspiro. A respiração controlada obrigava-nos a escutar o silêncio.

Naquele instante, não existiam arrependimentos do passado, nem angústias inerentes àqueles que pensam não ter feito o suficiente. Para mim, a vida começava ali, a cada dia, a cada instante, nova em folha. Descobertas infinitas.

O que será que Susana pensava? Amava-me aquela senhora tão espirituosa? Contemplava-me com a paciência de uma mãe, embora não me tratasse como um filho. Talvez tentasse me dizer algo. As mulheres costumam esperar que leiamos suas mentes intempestivas. O que, certamente não nos ocorre, já que os homens em geral são demasiadamente ignorantes em matéria de percepção do outro.

– Você está muito bonito nessa roupa – finalmente quebrou o silêncio.

– Ah, obrigado! – respondi com animação – Sinto-me renovado!

Susana permitiu-se um sorriso generoso, quase um ensaio à gargalhada. Passou a mão doce nos meus densos cabelos platinados e soltou um “Que saudades, meu velho!”. E saudades de que, ora? E eu não estava ali desde sempre, vivendo a vida que me ofereceram de bom grado e sem reclamações?

Novamente uma leve batida na porta. Um menino loiro e gorducho entrou sem permissão. Olhou-me com feições curiosas:

– Vô, posso usar uma dessas também?

– Só quando tiver idade suficiente para perder o juízo.

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