saudade gelada, doce

Publicado: 27 de julho de 2011 em Uncategorized

 

“Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade.”

“Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem”

quando eu era criança, gostava de tomar o sorvete devagar, na tentativa frustrada de adiar o derradeiro fim. o problema era que, ao demorar a saboreá-lo, ele escorria pelas mãos e eu deixava de sentir o gosto de grante parte do bom e velho doce gelado. sobrava-me a casca. e eu comia a casca, feliz.

um dia, conheci alguém chamado Saudade e fiquei pensando no sorvete. dava uma saudade danada de todos os sorvetes que se haviam ido embora, escorridos e limpos em guardanapos. outros apenas marcaram tantas roupas, inutilizando-as para todo o sempre. eu odiava saudade. por isso odiava também Saudade e sorvete. não, nunca mais tomei sorvete.

desde então, foi crescendo em mim uma vontade assassina. eu quis matar todas as saudades, mesmo aquelas que nunca foram. porque a pior saudade de todas, você sabe, é aquela do que nunca existiu. é a saudade de sentir saudade. aquela saudadezinha safada de coisas não vividas, momentos não compartilhados e frases não ditas. e o que consegue ser pior nessa saudade é minha fragilidade diante dela. a impossibilidade de fazer qualquer coisa.  meus joelhos que enfraquecem como os de um velhinho do qual a artrite não teve piedade.

saudade de ter fé em alguma coisa. simplesmente acreditar. mas o sorvete se foi e eu não tenho mais a crença de que os sorvetes possam nos deixar mais felizes. sim, eles podem. podem, mas sorvetes deixam saudades. sãos bons no momento em que existem. depois, além das saudades, deixam um pouco de culpa e gordurinhas abdominais. não importa. desejo sorvete.

queria experimentar todos os tipos possíveis e i(n)magináveis. tocar em todos eles com a língua e me entregar à felicidade de sentir tantas texturas, sabores e odores. eu quero o azedo do limão, o doce do chocolate, o granulado da castanha, a maciez da baunilha, a descoberta do creme com passas, a “delícia” do maracujá, o romantismo do “romeu e julieta”. quero sorvete. ponto final. ponto final, não. reticências, porque eu quero mais sorvete, sempre. até me lambuzar, passar mal, enjoar, e, depois de  um (curto) período de abstinência, voltar a vivenciar todos os mais deleitosos prazeres da gastronomia geladamente cremosa dos sorvetes. saudosos sorvetes que eu aprendi a gostar já na infância, mas que, também cedo, aprendi a odiar. odiar nada. preciso voltar à  procura pelo sorvete certo. aquele, cujo gosto deixará uma eterna saudade e me fará voltar sempre.

ah, mas o sorvete… o sorvete caiu no chão. “deus, como a gente se trai nessas memórias…”

pequena palavra de estímulo: “imagine. invente. sonhe. voe. se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores”

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