ruptura

Publicado: 22 de julho de 2011 em Uncategorized

chorei. não me pergunte por quê, mas chorei. assim, mesmo sem ter nem pra quê. aquela história não era minha. elas eram todas desconhecidas e aquilo tudo não faria a mínima diferença no meu destino. foi o que pensei.

apesar disso, eu não conseguia evitar as lágrimas que escorriam pela face, sem pudor. “safadas”, disse para elas, mas nem ligaram. continuaram caindo, caindo, caindo. nenhum lenço oferecido para estancar tal catástrofe. afoguei-me no rímel borrado.

elas olhavam para mim como se eu não fosse humana. talvez tivessem razão. isso não era coisa de gente. ou não. quem sabe eu fosse a única “gente” ali. porém, de que adiantaria tal discussão interna se eu não sabia o que fazer com aquele monte de coisa revirando no estômago; aquele monte d’água salgada banhando meu rosto. quem sabe se eu saísse correndo?

continuei parada. tensa. dura. se me jogassem no chão, certamente quebraria como um espelho. para a minha surpresa, elas continuaram a despejar suas vidas em meus olhos, ouvidos e narinas como se eu nem estivesse ali; como se eu tivesse descido por um ralo que acabara de abrir perante nós. eu queria me esconder, queria minha mãe. desejava voltar a ser uma criança que pode ter colo a hora que lhe convém. meu corpo era invadido pelas palavras pesadas, cortantes, doídas.

um filho natimorto. um estupro. um roubo. várias drogas. muitas vidas abandonadas. eu não tinha nada a ver com elas. nada. minha vida era um pirulito. doce e redondo pirulito que eu chupava aos poucos e com desgosto como uma menina mimada. as delas eram esgotos a céu aberto. fedidos, repugnantes, escuros e medonhos. não tínhamos nada em comum. mesmo assim algo me ligava à elas. algo invisível e que eu tentava tatear, sem sucesso.

quando a visita chegou ao fim e eu finalmente consegui sair da penitenciária feminina, parecia que haviam se passado uns 10 anos. meu anel de rubi pesava 100 quilos no dedo. eu era apenas uma advogada, sem poder algum. sem direito a julgamentos, concessões, condenações, etc, etc. não podia fazer nada, nem queria. porque eu sempre quis uma vida tranquila e estava pouco me lixando para os mendigos na rua, para as crianças na África ou para as prostitutas do Centro. eu queria dinheiro, casa, roupas de grife, um marido de boa família, crianças rosadas e gordinhas, viagens para a europa nas férias.  e elas? queriam o quê, essas mulheres?

o filho dela tinha um pouco mais de 4 meses. era pretinho, de olhos vivos e cabelo pixaim. daqui a 2 meses seriam separados, mas ela nem chorava. havia se acostumado, como se acostumara a tudo ali. até mesmo à ausência de liberdade. eu não. sempre quis voar. eu estava indignada.

estava indignada porque elas haviam me levado a um caminho sem volta. a cortina se abrira e o mundo estava exposto. eu estava exposta e, mesmo que quisesse, não podia permanecer inerte. meu corpo respondia. as lágrimas vinham e eu desejava fortemente que tudo fosse diferente. que elas pudessem ter ” dinheiro, casa, roupas de grife, um marido de boa família, crianças rosadas e gordinhas, viagens para a europa nas férias.” mas, não. essa jamais seria a realidade de nenhuma delas e, por isso, elas me incomodavam. elas incomodavam meus sonhos. elas mancharam meu quadro pintado na parede com um tinta permanente. malditas mulheres! maldita eu! tão egoísta dentro desse vestido preto. tão séria em cima do salto alto, da bolsa de couro italiana.

não conseguia esquecê-las. via a mulher de seio murcho que olhava pro chão. ela estava no meu retrovisor. ela segurava uma foto. “essa é minha filha”. tinha mais rugas que a minha bisavó (se eu tivesse uma). ela fedia tão forte que nem mesmo meu chanel 5 resistia a tanta mazela, a tanta desumanidade.

por favor Deus,  tira essas imagens daqui. faz-me esquecer como os que padecem de alzheimer. e me traz de volta para meu santuário, minha redoma de vidro. eu sou uma flor. eu não queria, não queria… em verdade, choro porque, finalmente descobri que amo. amo imensamente esse ser humano desdentado, flácido, enrugado, triste, fedido, rasgado, faminto, ignorante e pobre. amo! amo! que pecado! que pecado, Senhor!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s