histórias de bullying

Publicado: 3 de julho de 2011 em Uncategorized

– Florêeeencio, me dá o leeenço! Florêeeencio, me dá o leeenço!

gritavam e riam as hienazinhas semvergonhas. depois saíam correndo com medo do menino da cabeçorra.

havia nele ainda mil motivos para se tirar sarro, embora, na verdade, a maioria temesse  seu temperamento difícil e os atos intempestivos de criança maligna. Florêncio não era um querubim, mas um anjo caído, desses que nem mesmo o céu acolheu.

as pernas eram finas como as de um sabiá. o joelho preto de danação e as unhas encardidas de terra. Florêncio tinha a pele branca, cabelos castanhos e olhos verde-amarelados feito os do gato da don’Ana, a vizinha, mulher bondosa como a Ave Maria.

as calças de menino ainda eram curtas e o suspensório evitava que caíssem, dada a extrema magreza. e o que tinha de magro, tinha de ruim, a tal peste nascida do ventre de Rita Perebenta (como era conhecida pelas crianças da redondeza).

quando as traquinagens chegavam aos ouvidos da mãe, Florêncio não escapava da surra. ela o trancava na despensa e, da casa de don’Ana, podia-se ouvir o estalido da sandália de couro no dorso do menino. mesmo com a boca sangrando, ele continuava a sorrir, em provocação. próximo à parede da casa ao lado, as crianças, horrorizadas, choravam. Florêncio, não.

mais tarde, quando a molecada brincava na rua, o anjo caído aparecia. fugitivo, passava correndo e levantava a blusa encardida:

– olha aqui o que a Perebenta fez!

e ria alto, um riso tenebroso, que dava até calafrios na espinha.

dia em desses, em que a filha da don’Ana ganhara de presente do pai pedras novas para o “jogo das pedras”, Florêncio aprontou das suas. as pedras polidas vieram do riacho das oiticicas. os olhos de Adélia brilharam ao vê-las. logo estava jogando com as duas irmãs mais velhas.

as pedrinhas, quando jogadas para o alto, brilhavam ao tocarem a luz do sol. caíam e eram pegas, após um verdadeiro show de malabares. assim, as meninas se divertiam e passavam o tempo de férias sem importunar a mãe na cozinha ou atrapalhar o descanso de seu Raimundo, o pai.

Florêncio, ao passar pela rua desembestado, viu a alegria da meninada com a novidade. e como o cãozinho adorava atrapalhar o divertimento alheio, arrumou um jeito de distrair todo mundo e passar a mão nas pedrinhas.

toda dengosa,  Adélia Melada, como  a chamavam por ser tão “manteiga derretida”, começou a chorar o mundo que se havia acabado. somente horas depois, Florêncio olhou na cara inchada da menina e lhe propôs o seguinte acordo:

– tô com as tuas pedras. se quiser elas de volta, vai ter de me mostrar a calcinha!

– de jeito nenhum!

– então pronto. nada de pedrinhas, sua boboca.

depois de alguns segundos pensando, a menina, cujo pequeno tesouro estava em posses demoníacas, resolver ceder. afinal, era só uma calcinha, ora bolas.

– tá bom.

Florêncio deitou-se no chão e esperou. Adélia, muito tímida, subiu o vestidinho de chita azul celeste e caminhou até o malandro. permaneceu de pé em cima dele até que se desse por satisfeito em vislumbrar sua calcinha foló ainda costurada pela avó Margarida, neta do fundador da pequena cidade.

– tá bom. toma tuas pedrinhas. agora já pode ir.

Adélia foi embora toda cabisbaixa. antes, é claro, passou na igreja e foi confessar tudo ao padre Tenório. não ia poder dormir com um pecado daqueles.

Pe. Tenório, que não era besta nem nada, ficou indignado com a maledicência de Florêncio e foi direto para a casa da Perebenda, digo, da dona Rita, a fim de contar-lhe o causo. dalí a poucos instantes, estava o diabinho de bunda pra cima levando uma coça daquelas.

Florêncio continuou na mesma, e não havia um dia em que não aprontasse alguma. Mesmo quando mudou-se para a capital, depois que a senhora sua mãe bateu o catolé, foi lá mesmo que o já rapazote pintou e bordou.

aqui no interior, apenas chegavam as notícias. teve  uma vez que disseram que ele havia botado fogo na sala de cinema. deu até no jornal. depois dessa, o cabra foi expulso da capital e proibido de voltar lá. agora, só deus sabe onde anda Florêncio. vai ver virou mesmo lenda, que nem os cangaceiros de antigamente.

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