Arquivo de junho, 2011

verdades sobre meu avô

Publicado: 12 de junho de 2011 em Uncategorized

lembro bem daquele dia. o velhinho chegou meio cabisbaixo com seus cabelinhos ralos, branquinhos que eu sempre tive a impressão de que se a gente soprasse, voariam da cabeça dele que nem dentes-de-leão. 

vovó estava sentada na cadeira de balanço com seu tricozinho rosa bebê. eram os sapatinhos da filha de não sei quem, que nem mesmo havia casado ainda. mas ela, sempre com a ideia de que poderia não estar viva a tempo de fazer qualquer coisa, tinha mania de adiantadar tudo. vai ver já tinha até roupinha pro meu bisneto naqueles baús de madeira que ela conservava no quarto.

zuleide anunciou a hora do jantar. vovô caladão. o que não era normal, pois sempre estava rindo com a  dentadura muito nova e brilhante. de vez em quando, ele até tirava e a deslocava com a ponta da língua. velhinho sem vergonha, aquele… dessa vez ele se limitou a suspirar alto e a marchar até a mesa de jantar.

papai continuou ao telefone com seus negócios muito importantes. aquilo me deixava puto. mamãe, há muito custo, voltara do salão de beleza a tempo de jantar conosco. os cabelos “poodle vai à praia”. as unhas vermelhas e muito compridas. teve uma época da minha infância em que cheguei a ter certeza de que minha mãe era travesti. descartei a possibilidade quando a vi nua no banheiro. torci para que as outras mulheres do mundo não fossem iguais à mamãe, pois quem se tornaria travesti na história seria eu.

desliguei os ramones da playlist. joey entoando seu let’s go! é isso aí… vamos lá para mais um sagrado jantar de família dos Yvannovski. minha irmã decerto não viria. devia estar na casa do léo. ambos chapadões depois de fazer sexo adoidado.

sentei à mesa. todos nos lugares de sempre. só o da jú vazio. senti inveja dela. papai com o celular no ouvido. mamãe mostrando as unhas para a vovó, chocada com a modernidade dos esmaltes foscos:

– coisa mais feia! na minha época, quando mais brilhoso, mais bonito…

– a senhora não entende mais de moda alguma, dona clarisse. fique na sua, fique. velha broca (pensamento)

vovó resmungou um “ninguém mais respeita os velhos” e eu dei uma piscadela para a senhorinha, sussurando:

– liga não, vó. a mamãe é travesti.

– é o quê, meu bem?

– deixa pra lá, vó.

papai finalmente desligou o celular. zuleide pôs o jantar. como em todas as quintas-feiras, o prato principal era o kaczka z jabłkami. até hoje não sei falar isso direito. enfim, fazia parte da nossa tradição de descendentes poloneses. nada mais do que pato assado com maçãs. mas vovô, com aquela  carinha de papa polonês, fazia questão de pronunciar bem a sua língua mãe.

demos início ao longo e doloroso processo gastronômico em família. a comida era ótima,  mas o silêncio era constragedor. sempre comia o mais rápido que conseguia, mas os minutos se arrastavam. quando alguém resolvia falar, era merda na certa. dito e feito. 

– papai, o senhor não acha que está velho demais para sair por aí dirigindo?

nie. por quê? já bati o samochód, por acaso?

– não, papai. mas fico preocupado. não bateu, mas é bem provável que aconteça logo. já estou sentindo o senhor meio gagá.

– gagá é o seu tyłek. spierdalaj!

não sabia o que o vovô estava dizendo, mas que ele falando uns bons palavrões isso eu sabia. e estava gostando. até passei a comer devagar, para ter mais tempo de aproveitar a “conversa”.

não vou discutir com o senhor, papai. o senhor é uma pessoa idosa e eu lhe devo respeito.

vovó apenas comia. estava acostumada àquele tipo de conversa e,  para ela, o pato esfriar é que era um sacrilégio. mamãe olhava para ambos com as mãos no queixo, cuidando para não borrar o esmalte. ela sempre gostou de assisir a um bom bate-boca.

vovô ficou calado. deu mais duas garfadas na comida, pegou o guardanapo ao lado do prato, limpou a boca oleosa e respirou fundo. tão fundo que eu até parei de mastigar para ouvir melhor o que ele ia dizer.  

– pois bem. tenho uma rzecz para dizer.

todos silenciaram. só vovó comia.

– eu sou gej.

– tá, papai. senta aí e come.

GEJ! GEJ GEJ! bekart!

eu podia até não saber o que era bekart, mas gej… tinha ouvido em um filme polonês no cinema de arte da segunda guerra mundial. o vovô estava gritando que era gay e eu mal podia acreditar.

– minhas malas estáo prontas. Muszę iść.

e o senhor vai para onde, por acaso?

– vou deixar sua matka e volto para minha querida polska.

vovó continua a comer. o celular toca. papai atende. vovô sobe e pega as malas. eu me ofereço para levá-lo ao aeroporto.

– vô!?

– hm!?

– como é ser um gej na polônia?

nie wiem. ainda vou descobrir.

– posso visitar o senhor qualquer dia?

vovô balançou a cabeça afirmativamente. nos abraçamos, e ele se dirigiu até o portão de embarque. ele não estava mais marchando como de costume. o andar era leve e até engraçado. não é que o polonês tinha enganado todo mundo? é. meu avô é gay. olha que isso dá até nome de filme.

a cinta-liga

Publicado: 3 de junho de 2011 em Uncategorized

(sexo selvagem e sem compromisso)

Nunca imaginei que dona Angélica pensasse em sexo. Muito menos que falasse sobre o assunto ou  pior, que praticasse o tal ato. Mas a senhora que habita a casa em frente a minha, ela me enganou com sua cara de vovó da chapeuzinho vermelho. A mulher com aquele semblante enrrugadíssimo; com aquele sorriso de mulher recatada e bondosa. Jamais suspeitei quem realmente era antes de passar a observar mais através da janela de meus humildes aposentos.

 A estranheza dos atos da dita senhora foi notada quando um rapazola de uns 20 e poucos anos adentrou a casa dela num fim de tarde de outubro. O tipo era másculo, bonitão. Pensei que fosse, quem sabe, um neto seu. Porém, logo descartei a ideia, que me pareceu absurda, uma vez que a mulher, que se dizia viúva, não tivera filhos. Um afilhado, quem sabe? Doce ilusão.

Na porta, ela recebeu o garotão de forma dissimuladamente natural. Um abraço de avó saudosa. Com um gesto malicioso, convidou-o para subir. Deu uma risadinha, aumentando exageradamente as rugas ao redor dos olhos e da boca. Logo em seguida, entraram no quarto. Nesse momento, dona Angélica, distraída que era, esqueceu a cortina da janela de vidro aberta. Por um fresta pode-se ver muita coisa, e meus olhos míopes, porém atentos, viram até mais do que gostariam.

Vi metade do corpo decadente da viúva do doutor Crisálido. Um senhor clínico geral! Ela se aproximou do garotão, que esperava mal sentado na cama. A senhora estava com um roupão em estampa de rosinhas azul-celeste.  De repente, meus olhos não podiam acreditar no que presenciavam. A velha despiu o tecido felpudo que trajava e, embaixo dele, nada mais que uma cinta-liga. Isso mesmo. Uma cinta-liga. Vermelha com rendas. Diria sensualíssima se não vestissem as pernas enrugadas e magras de uma senhora idosa. Teria morrido de um ataque súbito, não fosse meu sempre forte e preparado coração.

O garotão passou a mão nas pernocas da desinibida senhorinha, que subiu na cama com gosto de gás. Fechei os olhos, pois me negava a presenciar a cena. Mesmo assim, não resisti por muito tempo. Aquilo era demasiadamente bizarro para não ser registrado. A curiosidade era maior do que meu desgosto. Voltei a abrir os olhos. Uma cena impagável. A sorte de minha inocência quase perdida foi que uma fortíssima rajada de vento fechou a porta da janela com força. Vai ver era o espírito do Dr. Crisálido. Decepcionada e ao mesmo tempo aliviada, desci e fiquei na calçada de casa a esperar, discretamente, pela saída dos “pombinhos”.

O jovem mancebo não passava de um michê contratado para fins não muito castos, diria. Só sei que, quando terminaram o serviço, a mulher era só felicidade. Não continha um sorrisinho maroto, deixando à mostra a falta dos dois dentes da frente. Nunca mais olhei dona Angélica da mesma forma. Ora, a velhinha gostava de sexo! SEXO! Sexo selvagem e sem compromisso.