Arquivo de maio, 2011

o peso do mundo

Publicado: 16 de maio de 2011 em Uncategorized

– Vô lá no riacho! – gritou da porta.

O peso sobre a cabeça fazia latejar-lhe os miolos. A pele morena ardia com a quentura do sol e o cabelo queimava ao contato com o plástico desbotado da bacia. O crânio parecia moldado ao recipiente que levava as roupas usadas, sujas. O pescoço era firme, e a musculatura avantajada. Dolores suportava o peso do mundo.

As pernas arqueadas seguiam ladeira abaixo. As trouxas de roupa seguiam com elas. O sol estava demasiado quente naquela tarde. Retirou então a bacia da cabeça. Abraçou-a como a um filho. Dilatado, o abdômen empatava um contato mais íntimo.

Com esforço, a mulher chegou à beira d’água. Colocou a bacia na margem e retirou do sutiã o sabão feito da gordura das muitas galinhas abatidas nos últimos dias. Dolores tinha fome. “Só depois de lavar as roupas”. Sentou os quadris desajeitados sobre uma das pedras cobertas pelo lodo e começou a molhar as peças, uma a uma, com uma delicadeza jamais creditada a pessoas daquele porte.

A lavadeira não sabia cantar, por isso seu trabalho era mudo. Ouvia-se apenas o som das batidas das roupas nas pedras, da água e dos pássaros a reclamar do calor. Terminado o serviço, Dolores levantou-se com cuidado, pondo as mãos nas costas doloridas. Com a bacia posicionada na cabeça, escorregou, rompendo o cabresto das sandálias carcomidas pelo sol. Dolores caiu, deixando ir-se embora pelo riacho toda a roupa limpa, lavada. Ainda sem fôlego, mais uma vez se levantou, deixando para trás todo o peso do mundo.

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.a piada.

Publicado: 10 de maio de 2011 em Uncategorized

-tô azul de fome, cara. vamos ali na lanchonete pra comer alguma coisa.

-tá certo. mas vamos no supermercado que é mais barato, beleza?

-… (cara de puto)

Douglas e Eduardo param em frente ao Hiperbompreço da Pontes Vieira. vão direto para a lanchonete. Douglas pede  um pedaço de queijo roquefort, porque ele aprecia o nome e se sente alguém melhor ao degustar tal iguaria. para acompanhar, uma Coca-cola zero, porque o design preto é mais chic, além do que, não engorda. Eduardo escolhe uma coxinha de frango gordurosa. é mais barato e “enche” mais. um “buchinho” nunca fez mal a niguém. nada para acompanhar. “pra quê? só pra gastar dinheiro?”

os amigos se sentam em uma das mesas e começam a conversar aqueles causos de “macho alfa”. mulher, cerveja e futebol. o carro e tal. marina é gostosa. quem sabe não rola uma bebedeira no sábado? depois que o “vozão” vencer, claro. claro que Eduardo falava isso tudo sozinho, porque Douglas não frequentava esse tipo de ambiente nem compartilhava desses hábitos “primitivos”.

uma jovem mulher adentra o recinto. loura, alta, magra e elegante, ou seja, cheia da grana.

– que diva!

– que gata!

a mulher se senta próximo e pede uma salada de frutas SEM LEITE CONDENSADO. começa a olhar fixamente para Eduardo. sentindo o olhar dela queimando sua nuca, ele se engasga com a coxinha e bebe um gole do refrigerante do amigo, que fica puto por conta da marca oleosa deixada na lata.

.ela se levanta, sorri e para do lado de eduardo, já recomposto.

-boa tarde.

-boa tarde – responde Douglas. Eduardo está mudo.

-pergunta aí pro teu amigo se ele tá afim de dar uma volta no meu peugeot.

-diz pra dona que eu tenho de estudar, porque tem prova amanhã.

a “dona” dá uma rabissaca e vai embra puta. Douglas, mais puto ainda, diz pro amigo:

-mas tu é imbecil mesmo, hein?

– que foi?

– um mulherão desses danto em cima de ti e tu diz que vai estudar. que se dane!

– justamente, cara. uma mulher dessas dando em cima de mim? só pode ser piada. além do mais, tu sabe que eu sou tímido…

.ps: em homenagem a Erlon Coelho.

.da relatividade dos princípios.

Publicado: 2 de maio de 2011 em Uncategorized

Pra quê roupas? Desde que nasci ando pelado. Ninguém liga. Estou bem assim, e fico aliviado quando me dou conta de que posso permanecer completamente nu e esparramado na grama da praça num dia de sol. Fecho os olhos, abro a boca e deixo o vento bater na cara.

Sou feliz. É fácil ser feliz. Se arranjo o que comer, ataco tudo fazendo a maior festa; rápido como se aquela fosse a última refeição da minha vida. Adoro carne (deve de ser porque é uma raridade consegui-la). Não estou nem aí pro meu coração ou pro acúmulo de gordura na região abdominal. Sempre procurei agradar mais ao meu estômago. Ele me mantém vivo.

Durmo pouco. Gosto de aproveitar a vida. Não uso relógio. Nem sei que horas são agora, muito menos o ano ou o dia. É bom não ser refém do tempo. Minha rotina não está precisamente descrita em uma agenda. Faço o que me der na cabeça. Não tenho planos, nem preciso deles. Meu único plano é sobreviver e aproveitar meu tempo, que é bem mais curto do que o da maioria das pessoas. Por isso não me angustio com o que está por vir.

Já me deram vários nomes por aí. Nunca me importei com nenhum deles. Basta me chamar que eu vou. Me apaixonei incontáveis vezes, mas nunca senti ciúmes. Saímos, me diverti e fomos embora. Pra quê melhor? Acho que tenho algumas dezenas de descendentes por aí. Nada de cobranças ou pensar no que vem depois.

Cresci sozinho pelas ruas, mas nunca senti raiva disso. Na verdade, tenho um ótimo humor e sempre estou rindo. Pareço até um bobão. A não ser quando tentam roubar minha comida. É a única coisa que me tira do sério. Não invadam minha área.

Certa vez,  morei numa casa. Eu gostava deles. Levei umas porradas, mas não sabia direito porque. Acho que as pessoas não gostam que a gente se suje. São meio paranóicas com limpeza. Que loucura! Eu só ficava triste quando me deixavam sozinho em casa. A solidão é ruim. Mas, quando eles chegavam, eu ficava feliz, mesmo depois das porradas. Saber expressar sentimentos é fácil para mim. Para eles não, e eu me contentava apenas com um cafuné na barriga.

Nunca parei pra pensar sobre a minha aparência. Acho que a maioria das pessoas não me acha lindo, mas minha autoestima é boa. Me acho um cara bonitão. Um pouco magro, vá lá, mas tenho meus dotes. Corro rápido e meu sorriso é bem amigável. É o que importa.

O cheiro pra mim é uma coisa essencial. Cheiro tudo. Tudinho mesmo. O cheiro que mais gosto é o de comida, claro; do frango do seu Assis, da batata frita gordurosa da esquina. Mas também sei apreciar “bons” perfumes. Tem gente que cheira bem pra caramba, como aquela garota da saia azul. Pô, foi a primeira vez que senti vontade de seguir alguém até em casa, mas fiquei na minha. Ela não era pra mim.

Não sei se existe essa coisa de Deus. As pessoas se importam muito com isso, é verdade. Eu não. Nunca parei pra refletir sobre. Na verdade, nunca paro pra refletir. É perda de tempo. Se Ele existe, sou grato. Adoro a vida. Essas casas que costumam construir para… como é mesmo? Ah, orar. São mesmo muito loucas. As pessoas nem se conhecem, se juntam durante uma hora ou um pouco mais. Nem olham pra cara umas das outras. Ficam cantando, falando umas coisas absurdas, e se vão. Continuam sem saber com quem compartilharam esses momentos. As pessoas realmente são estranhas. Prefiro viver a vida que Deus (se ele existir) me deu, da melhor forma possível. Acho que essa uma forma digna de se mostrar agradecido.

Engraçado como as pessoas se prendem a certas coisas. Criam normas em suas cabeças e se proíbem de fazer um monte de coisa. Tudo é errado e feio.  Nada pode. Ninguém tem o direito de fazer o que bem entender com a própria vida.  Hesitam constantemente. Sempre que mandavam em mim,  nunca obedecia. Só quando me davam comida, claro. Acho que foi por isso que me mandaram embora.

Não tenho medo da morte. Não sei quando ela vem, nem me interessa saber. Para mim, morrer parece uma coisa muito natural. Vi meus pais morrerem. Não chorei. Apenas olhei durante um tempo e fui embora. Para que ficar ali chorando em cima de um corpo inerte? As pessoas gostam disso. Passam um tempão sofrendo por quem morreu. Pra quê? Ora, eles viveram a vida  ela devia de ter sido vivida. Boa ou má, eles tiveram uma oportunidade. Quando chegar a minha vez, estarei lá. Pronto como sempre estive. Estou satisfeito com o que sou. Mesmo sendo um cão, tenho meus princípios.