Arquivo de fevereiro, 2011

.caçando sonhos.

Publicado: 24 de fevereiro de 2011 em Uncategorized

.tac. tac. tac. tac. tac………………………………………………….tac. tac.tac.tac.tac.tac.tac.

.a mente era mais veloz que os dedos. também pudera. o que ela queria usando uma máguina de datilografar em pleno século XXI? ela, que nem chegara aos vinte anos. era só para ser diferente ou lhe habitava uma alma antiga, tão antiga quanto aquela máquina que fora de sua bisavó? é. acho que era bisavó.

.tinha essa mania de escrever sentada em uma cadeira de palha, carcomida pelo tempo. a mesa verde-musgo sobre a qual repousa a velha companheira de guerra (a máquina), já tivera outra cor. esta, jamais se saberá, pois as fotos que se tem do móvel, quase ancião, estão em preto e branco. algumas já nem existem mais.

.cada dedo permanecia sobre uma tecla. tão rápidas. tão ágeis. tão maldosas eram as mãos de lúcia. aqueles segredos fixados a pequenos golpes de tinta no papel…só quem os lesse entenderia o que aquela jovem-senhora pensava sobre o mundo. de sua parte não havia piedade ou contenção de palavras; não passavam por censuras prévias. tudo que de súbito lhe vinha à mente, sujava o papel. branco papel maculado.

.flores amarelas permaneciam do lado direito em um pequeno vazo sem cor. pálido como os espíritos. mas por que amarelas, se ela mesma fazia questão de dizer que odiava amarelo? não. não combinava com seu tom de pele. nada combinava com amarelo. nem o sol. sempre preferiu a lua. sim, a lua é que era realmente fascinante. despertava-lhe uma imensa vontade de beijar o céu.

.tudo aquilo fazia parte de um estranho ritual. quando os sonhos vinham, traiçoeiros que eram, tinham de ser rapidamente capturados na mente, tal qual saci pererê dentro da garrafa. entretanto, na mente as coisas passavam como num coup d’oeil. dali, prontamente tinham de seguir para o papel, passando antes pelos dedos delgados e alvos de lúcia.

.lembrou-se do pierrot que jazia morto na calçada. ainda estava de bruços, a face beijando o concreto. vestia-se elegantemente, assim como os mascarados do carnaval de veneza. apesar disso, tudo se passava em uma praça da alemanha oriental. nas mãos do clown, um saxofone dourado como os cabelos do petit prince d’exupèry. jovem demais para esperar e tão velho para jogar tudo para o alto por um amor. isso não era parte de uma canção? nunca se pode lembrar de tudo em um sonho…

.o homem negro que segurava um pombo cinzento com as duas mãos. era também a mesma praça? talvez, talvez. parecia fazer força; apertá-lo contra o peito. talvez o homem sentisse dor, e não o pássaro. beijou-o no bico avermelhado. outro pombo, mais adiante, brincava no espelho d’água. resquícios de uma breve chuva de verão.

.a menina francesa tomando sorvete de pistache. o creme verde ficava bonito na imagem. isso a ajudou a lembrar bem do sabor. engraçado, que no meio de tudo, a menina era lúcia. ou lúcia era a menina, sei lá. e a menina francesa falava espanhol. flu-en-te-men-te. pois se fez entender muito bem ao conversar com o rapaz que tocava guitarra flamenca. mas ele não. ele cantava em francês. “ah, mon amour. a toi, toujours dans tes grands yeux, rien que nous deux”. vai entender…

.distraiu-se a criança com o pombo e meteu a cara na poça d’água. bem feito! quem manda andar olhando pro céu que nem gente avariada. ou soberba. é. pode ser soberba, sim. mas a menina nem era mais lúcia. tornara-se chapeuzinho vermelho. e nem lobo mal tinha. só sorvete de pistache, que agora era de limão. assim, como pedro não era mais o príncipe, e sim o pierrot estirado no chão.

.depois da rima, não lembrou mais de nada, porque lúcia, além do coração, tinha memória fraca. e sabe, como é… sonho é coisa traiçoeira. quando menos se espera, foi. acabou.

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.lei da resistência.

Publicado: 16 de fevereiro de 2011 em Uncategorized

.mordeu a fruta com força, rompendo a casca firme e atingindo a polpa suculenta. o líquido da seiva espirrava dentro da boca misturando-se à saliva ambundante. não salivar ao morder uma maçã madura era impossível.

.as janelas do ônibus estavam embassadas. chovia. mesmo no aperto, com as mãos ocupadas em segurar nas barras superiores e garantir o próprio equilíbrio, ele não pôde resistir em escrever as iniciais no vidro.

.mais na frente, o garoto de mochila nas costas não conseguia parar de olhar a moça a sua frente. uma calçinha minúscula ultrapassando as barreiras do jeans colado em um corpo disforme. um horror! e como as imagens chocantes têm real poder sobre o olhar humano, a observação minuciosa, neste caso, era inevitável.

.inevitável também era não querer lúcia. lúcia, não. a boca de lúcia. era impossível ver aquela boca mexer em slowmotion e permanecer parado. aquela boca vermelha e carnuda. ser preso valeria à pena, só por beijá-la sem consentimento. 

.há como resistir a um bolo inteiramente feito de chocolate, trufado e com uma cereja no topo? puro êxtase. pesquisas dizem até que chocolate excita mais que beijo na boca. acredito. simplesmente não dá pra passar sem comer um pedaço. ah, se fosse só um!

.mandar à puta que pariu aquele sujeito que te molhou inteiro com o carro em alta velocidade em dia de chuva. é como respirar. totalmente involuntário. quase como ser um sonâmbulo, ou, quem sabe, querer matar um em dia de TPM.

.há coisas tão impossíveis ou irresistíves na vida quanto fechar os olhos para beijar ou espirrar. para algumas pessoas, idealizar ou planejar o amanhã pode ser incontrolável. ter medo diante de uma situação difícil, desviar o olhar quando é paquerado. ler um bom livro compulsivamente, chorar em casamento ou vendo um filme qualquer.

.amar alguém, odiar alguém. sentimentos são essencialmente questões que fogem ao nosso controle. não há como segurá-los. na melhor das hipóteses, resta-nos apenas administrá-los. que bobagem!

.resistir parece tolice. e é. resistir em ser quem se realmente é. resistir aos desejos e tentações. se adão e eva não resistiram, por que resistir, então? tudo é muito passageiro para ser evitado, desperdiçado, tolhido, escondido, preservado. fazer isso seria deixar de viver, afinal, viver é se jogar em um abismo sem volta. pessoas, coisas e lugares aparecem no caminho. a resistência não é nada mais que um método de defesa falido que nos submete à superficialidade. que tristeza é! viver? nada melhor. resistir? para quê? na dúvida, se joga!

.black swan.

Publicado: 10 de fevereiro de 2011 em Uncategorized

.uma delicada bailarina com seu quarto rosa. na cabeceira da cama, uma caixa de música. as sapatilhas penduradas junto ao enorme espelho. um cenário como esse somente poderia despertar paz, beleza, perfeição, no entanto, a baixa luz e o ambiente sombrio levam a perceber uma história formada por dois lados.  na verdade, o retrato da eterna briga entre o lado bom e o lado mau. como no balé, o cisne branco e o cisne negro disputam o seu lugar. a jovem dançarina aprisionada na busca pela perfeição tem uma única oportunidade de conseguir o papel de sua vida: SENTIR.

.em Cisne Negro (direção de Darren Aronofsky, 2010, EUA), Natalie Portman é Nina. para isso, ela consegue um corpo esguio, quase infantil. na obsessão por obter o papel de destaque que nunca teve, a moça bailarina não come, não se diverte. apenas dança. tudo que ela sente é medo. não passa de um robô humano a executar movimentos completamente perfeitos. mas o diretor artístico da companhia de dança da qual faz parte,  Thomas Leroy (Vincent Cassel), quer mais do que  perfeição para o seu novo espetáculo: o lago dos Cisnes. para ele, Nina já teria o papel principal, não fosse ela ter de representar também o Cisne Negro, que requer entrega, intesidade, paixão. apenas let it go.

.nesse momento é que se intensifica um conflito interno. Nina, a sempre doce garotinha filha de uma ex-bailarina frustrada que aposta nela todas as suas fichas, se sente pressionada. treina arduamente. quer o papel. consegue. Thomas a seduz assim como fez com Beth MacIntyre (Winona Ryder), sua ex-bailarina preferida que irá se aposentar nessa temporada. está velha demais para ser “sua princesinha”. sem aceitar o destino, ela provoca o acidente que a torna totalmente impossibilitada de dançar. mais uma vez, Nina carrega o peso de uma culpa que não é sua.

.apavorada, ela começa a se sentir perseguida e tem de lutar contra sua pior inimiga. mal sabia que na verdade, ao invés de Lilly (Mila Kunis), uma das bailarinas da companhia, lutava contra si mesma. Nina fica tão obcecada pelo papel que passa a realmente incorporá-lo. nesse combate, ela transcende valores, usa o próprio corpo em uma auto-descoberta, delira, experimenta, se mutila, se pune. ela sente à flor da pele.
.para isso, os 103 min de filme contam com efeitos especiais que mexem com o psicológico do espectador. ilude, esconde e mostra. é um misto de beleza angelical com golpes de um terror dramático. tudo isso regado por uma estética onírica que por vezes pode parecer um sonho bom ou um doloroso pesadelo. a imagem tremida, rápida, se mistura à placidez de movimentos delicados, emocionais. a luz é sempre escassa, a não ser quando o espetáculo se inicia.

.o figurino é um dos pontos fortes da obra. a aura singela e pura que rodeava Nina é representada pelos tons de rosa e principalmente pelo vestido branco que ela usa em sua
apresentação. já o cisne negro da bailarina é perfeitamente incorporado em seu figurino e maquiagem usados no Balé dos Cisnes. a expressão é outra.

.para arrematar a perfeição dessa obra-prima, a atuação de Nátalie Portman aparece assim como propõe a obra: sensível, intensa e despida de qualquer pré-conceito. a atriz se entrega de corpo alma e simplesmente SENTE.

.para quem quiser ver porque ele está entre os indicados ao Oscar:

.maria que odiava salsão.

Publicado: 6 de fevereiro de 2011 em Uncategorized

.sentada em uma das mesas do restaurante do trem Budapeste-Viena, Maria acabava de fazer uma descoberta que mudaria sua vida. Maria odiava salsão.

.a sopa de legumes foi servida no jantar durante o qual a maioria dos passageiros dormia. Maria, que passara a vida interia (25 anos e 5 meses) procurando achar algo do qual não gostava, finalmente descobriu o salsão. e não era só o gosto da folhinha esverdeada que não a agradava. só de sentir o seu cheiro forte e marcante, dava-lhe náuseas.

.surpresa com a recente constatação, Maria olhou para os lados em busca de alguém com quem compartilhar os recentes acontecimentos. seus olhos e ouvidos passeavam por todas as mesas, apenas duas encontravam-se ocupadas. uma delas por um casal idoso que discutia, provavelmente pela falta de sexo. a outra por um homem com cerca de 34 anos. certamente havia sido deixado pela mulher, constatou.

. Maria tinha essa mania de prestar atenção nas conversas de desconhecidos e depois anotar tudo num caderninho. não se sabe bem o que ela fazia com aquilo. ela apenas não queria esquecer.

.ouviu um som familiar. no piano (sim, havia até um piano no vagão restaurante), um rapaz (ela não pôde mensurar a idade, pois os olhos dele pareciam velhos demais para o resto do corpo) passava os dedos pelas teclas.ela não sabia porque, mas, desde menina gostava do som do piano. emocionava-se apenas ao tocar os inúmeros dentes brancos de um dragão cheio de cáries. sorriu.

.o rapaz no piano lembrava-lhe Tadeu, aquele que foi seu primeiro amor e ao qual dedicara seus primeiros poemas de menina sonhadora. lembrou-se da noite de chuva na qual ele prometera nunca lhe fazer chorar. desde então, Maria chorou durante quase 4 anos por Tadeu. um dia se perguntou se as lágrimas nunca secariam. “as lágrimas nunca secam, baby”, alguém lhe falou. naquele momento, ela apenas pensou em quantos rios suas lágrimas haviam de ter preenchido. teria alagado Viena? que disperdício! “chorar nunca é disperdício”, disse o rapaz do piano.

.só então Maria se deu conta de que estava chorando e que o rapaz de olhos antigos aproximara-se.

– bem-vinda à Viena, senhorita!
– obrigada. tadeu, por acaso quer ver o raiar do sol comigo?
– como sabe que me chamo Tadeu?
– i just know. i just know.
– tá certo!

.andando pelas ruas, Maria se impressionou com as figuras noturnas. poetas vendiam suas poesias (eram como uma mãe vendendo os próprios filhos), o mendigo de ar fidalgo, a cartomante que falava inglês e dizia ler mãos por 15 euros.

.Maria era do tipo de pessoa capaz de ver o céu e ainda se espantar com um simples amanhecer. daquele tipo de moça que pinta as unhas de azul hortênsia só para dizer que é muito moderna. Maria que não passava de uma criança crescida. uma alice que comeu do bolo encantado.

.dali há pouco, sentados em uma gôndola, Maria e Tadeu assistiam o nascer do sol que aparecia entre as nuvens.

– Maria, vou dançar com você como se fosse seu namorado.
– não prometa nada, Tadeu. não quero passar o resto da vida sem dançar. que tal prometer comprar-me salsão todos os dias?