Arquivo de dezembro, 2010

.amores-perfeitos.

Publicado: 28 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.11h57. uma mulher sentada no balcão do bar, na rua onde a noite acontecia. onde amores chegavam e partiam. onde o demônio vinha para atentar os corações solitários. o dela parecia despedaçado.  desde a primeira vez que eu vi lúcia, com seu cabelo ruivo e rebelde, não pude evitar. minha respiração foi embora. o corpo paralisado. eu queria lúcia. não dava para voltar atrás.

.ela procurava por algo no fundo do copo. ou talvez, quem sabe, procurasse por alguém. aproximei-me da mulher sentada no balcão. eu que, naquela noite parecia mais um cachorro sem dono, cerquei lúcia como se ela fosse somente minha. lúcia sorriu para mim como quem oferece diversão, porém, me desprezou com o olhar. entrei no seu jogo. eu quis entrar.

– preciso falar com você, lúcia.

– como você sabe meu nome?

– sei quem você é. trabalha na galeria de arte do outro lado da rua. lúcia, faz três meses que a sigo de longe até o prédio onde mora. gosto de andar atrás de você, observá-la falar sozinha enquanto seus cabelos dançam com o vento.  lúcia, estou apaixonado por você.

.dessa vez, lúcia não sorriu. lúcia chorou. fechou os olhos e deixou escorrer pelas bochechas, densas lágrimas, que seguiram até os lábios. os salgados lábios de lúcia.

– e o que você quer de mim?

– quero viver contigo, lúcia. todas as manhãs, observá-la comer maçãs em grandes e suculentas mordidas, fazendo escorrer a seiva doce sobre os lábios. e você vai  limpá-los delicadamente com os dedos. o vento, que entrará na janela da cozinha brincará com os cachos vermelhos de seus cabelos e você vai colocá-los em seu devido lugar, daquele jeito que, só um cara louco como eu achará tão sexy. você vai ficar toda encabulada, pensando que estou mentindo pra você.

.lúcia olhou novamente para o fundo do copo. procurava por alguma resposta? percebi que o copo estava vazio. apenas a marca de batom. encarei-a.

– o que tanto olha no fundo desse copo, lúcia?

– a verdade. e o teu nome? qual o teu nome?

– mentira. às vezes é melhor viver com a mentira que se embriagar com a verdade.

– e o que o sr. acha que eu deveria fazer, sr. mentira?

– acho que deveria largar tudo e viver comigo.

– para sempre?

– até a mentira acabar.

– e o que eu faço quando ela se for?

– procura o copo vazio. só depois de conhecer a mentira é que pode encontrar a verdade que tanto procura.

– e o que a mentira me dá em troca?

– o amor.

– amores-perfeitos são minhas flores preferidas.

– mas não existem amores-perfeitos nessa cidade.

– como vou saber se é verdade ou mentira?

– busque-os.

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.os normais.

Publicado: 25 de dezembro de 2010 em Uncategorized

– ei, Moço! você pode me dar uma ajuda, por favor?

– pois não. pode dizer, senhorita.

– pra quê tanta formalidade? pode me chamar de adriana. meus amigos me chamam de drica. ele me chamava de amor. fique à vontade pra escolher.

– tudo bem, senhorita adriana. em quê posso ajudá-la?

– você vai ficar em pé aí? senta. eu tô pagando a conta, sabia? há mais de 4 anos eu venho nesssa birosca aqui. exijo que você sente e me escute.

.olha o nome do Moço/Garçom bordado no uniforme preto

– E-du-ar-do. me diga, Eduardo, está escrito na minha testa que eu sou solteira? está tão visível assim pra você insistir com essa história de senhorita? eu poderia ser uma senhora. senta logo, ou vou fazer um escândalo aqui. vou chamar o gerente… ô Gereeente!! (ensaia um grito)

– tá. tá bom. eu sento. mas eu posso ser despedido por isso.

– seria despedido de qualquer forma.

– a senhorita não tem aliança no dedo. não é casada.

– mas e se eu a tivesse perdido, ou tirado de propósito para que você não soubesse que eu sou casada, Eduardo? se eu quisesse trair meu marido?

– a senhorita vem aqui há quase 4 anos e nunca usou aliança. também nunca a vi com homem algum, e é a primeira vez que a senhora procura saber meu nome.

– é. você me pegou. deveria ter tido essa curiosidade antes. bem, deixa pra lá.

.a Solteita/Adriana ajeita o cabelo com a mão esquerda e cruza as pernas.

– pena que aqui não pode fumar né?

– eu não fumo.

– como você é careta, Eduardo. até seu nome é careta. vou te chamar de Dudu, então.

– como queira. a cliente sempre tem razão. e o que a senhorita deseja de mim?

– se eu sou a cliente, quer dizer que eu tenho a razão? que loucura isso, hein? é a primeira vez que dizem que eu tenho razão. geralmente me chamam de louca, impulsiva, descontrolada, neurótica, IRRACIONAL. (gargalhada. bebe um gole do do conhaque)

ah, meu querido eduardo. eles pensam que sabem de tudo. ninguém sabe de tudo. ninguém, eduardo. estou aqui, como sempre, no limite entre a razão e a loucura. sem saber se existo ou não. você existe, Dudu?

– creio que sim, senhorita. nunca havia parado pra pensar nisso.

– pois eu paro. constantemente eu penso nisso. me dá um calafrio na espinha só de pensar que eu possa estar acreditando ver, tocar, cheirar coisas que não existem. isso não seria normal, não é? mas, há momentos em que eu não ligo muito e até gosto dessa incerteza. ia ser legal ter um mundo só meu.

– mas as pessoas nem sempre compreendem gente desse tipo.

– doida?

-mas a senhorita não é doida.

– não? quem te disse, eduardo? eu posso ser perigosa. quem pode dizer com certeza que não somos um bando de loucos? (vira-se e olha bem nos olhos do Garçom/Moço/Eduardo). o que é loucura? me explica, eduardo. porque eu já não sei. porque eu não tenho certeza de que o mundo ao meu redor é real. e olha que nem bêbada eu estou.

– …

– olha pra mim. o que você vê?

– uma mulher bonita, inteligente, mas amargurada.

– a-mar-gu-ra-da. é isso que você pensa de mim? talvez tenha razão. me disseram que o meu problema é a intensidade com que sinto as coisas, sabe? sinto tudo que uma pessoa “normal” sente, só que sinto diferente. sabe quando você toma ácido e parece que o som é mais alto do que parece? que as cores são mais vivas e que o mundo todo é mais intenso do que realmente é? é o que acontece. só por isso posso ser classificada como “anormal”? quem classificou as coisas dessa maneira? quem me garante que eles são os “normais”?

– não sei, senhorita. também não tenho essas respostas.

– você escuta muitas coisas incoerentes como essa durante o trabalho?

– confesso que não é muito comum.

– e você é o quê?

– eu? eu sou o Garçom do Restaurante, ora.

– perguntei que patologia você tem. é ninfomaníaco? não você não tem cara de ninfomaníaco. é psicopata? bipolar! é bipolar, Eduardo?

– não! não tenho nenhuma doença, que eu saiba.

(bebe novamente do conhaque) todos têm, Eduardo. só não descobriram ainda. vou te contar um segredo:

– o que a senho…

(se aproxima e cochicha no ouvido do Garçom/Moço/Eduardo) meu bem, depois que inventaram essa tal de psiquiatria, não existe mais ninguém normal.

– a senhorita é mesmo louca! (leva-se para ir embora)

– todos dizem isso, meu caro. todos dizem. todos negam, mas você… você deve ser um esquizóidezinho qualquer…

.ser é um direito.

Publicado: 23 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.cheirava à cebola. não só ela, mas toda a cozinha tinha cheiro de cebola. o suor escorria-lhe pela nuca. nuca nua. apenas alguns fios de cabelo que soltavam-se do penteado elegantemente desalinhado no topo da cabeça. o vestido azul marinho com pequenas flores brancas tinha uma das mangas caída, deixando sensualmente à mostra o ombro esquerdo.

.ela se virou para mim, com a faca na mão. o cheiro da cebola. a sopa fervendo no fogão. as gotículas de suor moldando um “bigode” acima da boca febril:

– bom dia, meu amor! – disse, com voz doce.

.não consegui pronunciar uma palavra sequer. ao virar-se, ela deixou que os raios de sol invadissem a cozinha através das frestas da janela. os pequenos feixes de luz incidiram sobre aquela figura de mulher, fazendo com que seus olhos parecessem ainda mais verdes. era como a imagem de uma deusa envolta por uma luz sobrenatural.

.era a única mulher do mundo que conseguia ficar bonita mesmo suada e com cheiro de cebola. não tive escolha. apaixonei-me. novamente me apaixonei por aquela mulher que conseguia ser deslumbrante desde que acordava até a hora de irmos pra cama. a minha única vontade naquele momento era de me jogar aos seus pés e culturar sua divindade.

– o senhor não acha que a relação com a sua mulher era um tanto quanto obsessiva?

– o que o senhor chamaria de obsessão, doutor? bem, não estou aqui por conta de relacionamentos amorosos, extraconjugais ou não…

– e por que o senhor acha que está aqui, então?

– doutor, me disseram que eu podia tudo. tinha apenas 5 anos e me disseram que eu podia ser quem quisesse. e era mentira, doutor. eu não podia. não pude. e estou aqui, sendo ninguém, ou pelo menos ninguém que eu queria ser.

– então o senhor acha que não é o senhor mesmo? não está feliz com quem é?

– doutor, o senhor não entendeu? quer que eu desenhe? por que eu sei desenhar até muito bem. olhe, estou aqui por que exijo meus direitos. deram-me garantias que não foram cumpridas. quando eu tinha 12 anos, eu quis ser o super-homem, mas descobri, ao pular da janela, que não podia voar. aos 15, eu quis Dolores, mas ela disse que eu era muito doido pra ela. aos 18 eu quis comprar um carro, mas meu pai disse que eu tinha de trabalhar. então, eu quis ser astrólogo, mas meu pai disse que isso era coisa de veado e que não podia. fiz jornalismo. na faculdade, conheci sílvia. eu não a queria, mas ela me quis. só depois fui descobrir que minha mulher era assim tão linda, doutor. três anos depois do nosso casamento, ela morreu. bem, mas quando consegui ser jornalista,  me disseram que eu poderia salvar o mundo. mentira, doutor. eu não podia nada. e o que eu faço depois de tanto tempo perdido?

– e por que o senhor vem reclamar o seus direitos comigo? tenho cara de advogado, por acaso? meu trabalho é ser psiquiatra. eu cuido de loucos, meu senhor.

– é que me disseram, doutor, que tudo que eu quis na vida era impossível, coisa de doido. pensei que o senhor pudesse dar um jeito…

– desculpe, mas eu ainda não obro milagres, senhor. tá vendo aquele homem ali? o nome dele é profeta. está há mais de 20 anos aqui, procurando um lugar que ele nunca encontrou e que ninguém sabe onde fica.

– eu tô aqui mei ariado. não sei pra onde eu vô. só sei que uma hora eu encontro essa garagem – declamou o profeta dos loucos, cambaleando entre os gatos do jardim do hospital.

– mas, doutor, ele nunca encontrou essa tal garagem?

– não. do mesmo modo que você nunca vai ser o que quis ser. ou o senhor acha que eu queria ser médico?

.o profeta sentou-se num dos bancos de madeira,  cruzou as pernas, pousou uma das mãos no queixo e se calou com os olhos no infinito, tal qual o grande pensador.  tudo que ele queria era encontrar uma garagem.

.uma borderline.

Publicado: 18 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.sou boderline. transtorno de personalidade borderline (TPB). pode parecer bonito e engraçado, mas não é. e sabe o que é o mais difícil de ser uma boderline? não se saber quem realmente é.

.em menos de quatro horas, vou da ansiedade, para o ataque de raiva, para a felicidade e euforia, passando para a angústia e tristeza. volto para a ansiedade e raiva. agora estou aqui, numa calma morna sentindo o vazio do não-ser.

.se me perguntarem se sou louca, nem sei. porque não faço a mínima ideia da pessoa que me habita. suspeito que sejam várias e isso é assustador. não sei se sou alegre ou triste, boa ou má, inteligente ou burra, doce ou amarga, altruísta ou egoísta, sentimental ou fria. não sei se amo ou odeio, se quero ou se não quero mais, se gosto disso ou não. é difícil estar no limbo do ser.

.e essa eterna briga comigo mesma me faz ter certeza de que esse algo de errado me torna “feia”. antes de ser rejeitada, prefiro rejeitar, fugir e me trancar numa armadura fria e insensível. no fundo, meu medo de perder pessoas me consome. preciso das pessoas, mas tenho medo delas. ser boderline é uma  contradição sem fim que às vezes se torna insuportável.

.não julgo quem não me suporte. não sei se eu conseguiria conviver com uma pessoa como eu, pois não aprendi ainda a conviver comigo mesma. não se preocupem, isso não é um discurso suicida. não vou tentar me matar. provavelmente, quem falar comigo, mais tarde, me verá alegre e otimista diante da vida e não será fingimento. realmente estarei pensando que o mundo é azul e que a pessoas são lindas.

.só espero que, apesar de tudo, essas pessoas as quais eu amo, ainda consigam conviver com essa pessoa meio despirocada. porque, se tem uma verdade nesse mundo, é a dos meus sentimentos, apesar de eles estarem sempre em alta rotatividade. olhando pelo lado bom, pelo menos meu cérebro não cai na rotina. e eu sigo nessa minha eterna tentativa de estabelecer uma convivência amigável comigo mesma. porque, como diria meu amigo deivide, em toda turma tem que ter uma borderline.

.ps.: olha eu já frescando. meu humor já mudou no meio do texto. #owabuso

.a voz.

Publicado: 13 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.a voz dela me dizia coisas que não queriam ser ditas. tinha personalidade própria. eu podia enxergar aquela mulher, mesmo através de uma chamada ao telefone.  não tinha aquele viço próprio das falas juvenis, apesar da pouca idade. a voz era presa, assim como a criança que existia dentro dela.

.meu pai diria que ela tem tendências depressivas. com certeza, meu pai psiquiatra diria isso sem nem mesmo se importar com as consequências que tal diagnóstico implicaria na vida dela. nem precisaria de uma anamnese mais completa. o pior de tudo é que ele estaria certo. só pela voz eu podia perceber. a voz morna, gutural e presa.

.será que vinha da mãe ou do pai? teria ela tido uma infância feliz? será que havia, na cabeceira de sua cama, um copo d’água junto a uma caixa entreaberta de prozac? era tímida. mesmo com sua euforia forçada, ela não conseguia desarçar a gagueira súbita e hesitante de quem está ainda aprendendo a arte da comunicação além do corpo.

.eu não conseguia prestar atenção no que ela falava. apesar de todas as percepções anteriores, a voz dela era harmônica. transportava-me para qualquer lugar distante dali; da escrivaninha do quarto de hotel. como seria ela? a voz era morena, loira ou ruiva? talvez fosse morena. serena e discreta como a maioria delas.

.alô!? alô!? você ainda está aí? ah, sim, sim. pode falar, eu estou ouvindo. ouvindo sempre. humrrum… é. bem, desculpa te incomodar, mas você é morena, não é?

– o que é isso, Roberto? você sabe muito bem que eu eu sou morena. esqueceu por acaso que ainda é casado comigo?

.bem que eu tinha certeza de que conhecia aquela mulher de algum lugar…

.a noite é uma criança.

Publicado: 11 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.o cigarro no canto da boca. aquela boca que mentia pra mim. ele sempre mentiu pra mim. eu sabia e até gostava de me sentir enganada. era uma forma de eu fazer com que ele se sentisse culpado. porque, quando ele se sentia culpado, sempre tentava me agradar. e eu me sentia feliz, sabe?

.não gostava do cheiro do cigarro no corpo dele, mas gostava do gosto do cigarro na boca mentirosa dele. me transportava para um filme qualquer com um james jean de olhos escuros. sim, eu adorava aquele olhar perdido que me esnobava de vez em quando.

.aqui estou eu sentada com meu batom vermelho e minhas olheiras de clarice lispector. tomara que pelo menos eu tenha sorte no amor. sempre odiei vestir meia calça, mas estou usando-a hoje só porque eu sei que ele gosta. mal consigo respirar nesse vestido. nunca fui de me importar se alguém estava olhando pra mim, pra minha roupa, pras minhas pernas, pra minha boca. mas não sei. e se ele passar por aqui hoje?

.são 11hs. eu sei. ele não veio. costuma passar às 10hs. mas, e se ele se atrasou? não custa nada esperar mais um pouco. esperei a vida inteira, não é mesmo? uma hora não vai me matar.  traz mais um uísque. sem gelo, por favor. de diluído já basta o sangue que corre nas veias dele. aquele cafageste. esqueceu. ele esquece tudo.

.obrigada. porra! Acho que estou ficando bêbada. vou acabar falando besteira. vou dizer que o amo e ele vai dizer que precisa ir embora. esse uísque estragou meu hálito. é vagabundo, por acaso? tem uma pastilha de menta aí?

.obrigada. de novo. que horas são? meu relógio parou. 11h23? tem certeza? parece que ele não vem mesmo, não é? tem um cigarro ai? não, eu não fumo, mas deu vontade de sentir gosto de cigarro. tem ou não tem? não? hm, mas parecia que você tinha de tudo aí nesse balcão, hein? você tem amor pra vender aí? ando precisando comprar um, mas tá difícil. é… também acho. são tempos difíceis para os amantes. e para os sonhadores também…

.gostei de você. como é seu nome?  prazer, francisco. me chamo patrícia. posso te chamar de frank? adoro Frank Sinatra. ele sim sabia das coisas. tem torta de limão também nesse bar? que ótimo! frank, frank. você é um cara e tanto. sabe atender aos desejos de uma mulher.

.quer um pedaço, frank? adoro limão. e você? gosta de quê, frank? do meu sorriso? ah, sai dessa, frank. você tá dando em cima de mim? você não é casado, é? menos mal. você é bonitinho. interessante também. eu até sairia com você se já não tivesse esperando por alguém. quem disse que ele não vem? a noite é uma criança, frank. uma criança que gosta de brincadeiras bem perigosas. a gente pode se divertir antes. o que você acha? ah, frank, se você pelo menos tivesse um cigarro…

.isso é jornalismo.

Publicado: 11 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.quem é jornalista sabe, mas quem não é, acaba ficando por dentro de certas situações tragicômicas de uma redação de jornal. passei por algumas, presenciei ou só ouvi falar de outras. todas elas citarei mais abaixo:

.o que fazer quando a fonte se recusa a dar entrevista, desmarca ou está sempre esquecendo de mandar o material indispensável para qualquer jornalista escrever uma matéria?

1. você liga até a fonte te dar entrevista só pra se livrar do chato que você é na vida dela.

2. você mente e adianta o deadline da matéria. “é pra ontem”. se o desespero for grande, você diz que a sua editora vai te matar se você não chegar com essa matéria hoje. (e ela vai mesmo).

3. pesquise sobre o entrevistado nas redes sociais. esse mundo é tão pequeno que é capaz de você conhecer algum parente dele. então comece com um: “ah, eu sou amiga da sua sobrinha… a fulana de tal” e reze pra ele gostar da fulana.

4. se nada der certo, diga pra sua editora que a fonte morreu, sei lá,  e muda de pauta. conselho: chegue logo com outra pauta já com fontes e tudo. vai amenizar a situação.

5. se a pauta for definitiva, corra, aborde a fonte onde quer que ela esteja se quiser permanecer no seu emprego. se nada disso der certo, só deus te salvará.

 .como recusar uma pauta chata?

1. ninguém pode recusar pauta a não ser que seja chefe.

2. mas se você é insistente, cara de pau e sortudo, tenta “matar” alguém na sua família. é clássico.

3. perde, assim, sem querer, o contato das fontes. detela os e-mails da acessora de imprensa que te consegiu a fonte, sei lá.

4. arranja defeitos para a matéria. vale qualquer tipo.

5. diz que não vai fazer e pronto. quem sabe você não está com sorte né?

.como se livrar de uma acessora de imprensa chata?

1. diz que vai fazer a matéria próxima semana (mesmo que nunca faça) pra ela parar de ligar.

2. depois que ela perceber que você não fez, vai pertubar de novo. desligue seu celular e mande dizer na redação que você está de férias.

3. se ela de algum modo te achar, diga que você tem que conversar com seu editor primeiro. depois fale que o editor não gostou.

4. se você é o editor, explique que a pauta não tem o perfil do jornal.

5. se ela continuar a insistir, mande ela praquele lugar e pronto.

.como essa espelunca se trata de um blog e eu aprendi na cadeira de jornalismo na Internet, os posts não devem se alongar muito, e quem manda aqui sou eu mesma, continuaremos com esse blabláblá em outra oportunidade. fiquem com o gostinho. ou não.  

.avenida paulista.

Publicado: 9 de dezembro de 2010 em Uncategorized

 

.quantas vezes declarei meu incontido abuso diante dessa cidade que não pára para pra nada, nem mesmo para olhar a lua cheia. parar como, se, com esse céu cinzento não há lua no céu de São Paulo? mais uma viagem. mais trabalho, porém, uma diferença: assim, como em todos os dias de minha vida, acordei diferente. consequentemente, pude ver sampa sob outro olhar, menos inquisidor.

.av. paulista. 9h e meia da noite. horário de verão. pro meu corpo ainda são 8h e meia. vamos aproveitar essa imensa faixa de concreto reluzente em período natalino. na calçada, algumas pessoas desaparecem em buracos gigantescos até chegarem ao metrô. o fluxo de carros e gente faz parecer que ainda é cedo. e é para quem vive em são paulo, afinal, essa cidade não pára, não é verdade?

.mesmo assim, algumas lojas fecham. tomo um café nas esquina e entro no hotel. 11h e meia. incrivelmente, não estou cansada, porém, penso no dia que será longo. deito na cama confortável de hotel e assisto a um programa de tv qualquer, até que o sono venha me buscar.

.7h e meia da manhã. para mim, ainda 6h e meia. mas é isso. temos de trabalhar, não é? banho quente. visto-me para o café da manhã sortido de hotel. gente estranha. para mim é um tanto incômodo compartilhar a primeira refeição do dia com tantos desconhecidos. ocupei uma das poucas mesas vazias. voltei para buscar uma xícara de café…

.de repente, lá estava ele sentado na “minha” mesa. o que fazer agora? voltar não dava. meio desconsertada, sentei. “fique à vontade”. “obrigada”. realmente tive de compartilhar meu café da manhã com um estranho. e que belo estranho…

.no começo, um gélido silêncio me incomodava. eu só queria comer e sair mais que depressa daquela situação desconfortável. quanto menos esperei, ele quebrou o gelo. “de onde você é?” “FÓrtaleza”. carreguei bem no sotaque. e assim, começamos um longo diálogo. aproveitei para palestrar sobre a minha bela cidade com o orgulho que todo cearense, apesar de reclamão, tem de sobra. afinal, só quem pode falar mal do lugar onde vivo sou eu mesma.

.a beleza daquele homem me angustiava. era tão bonito quanto os tãos descritos deuses da mitologia grega. belos olhos azuis. cabelos dourados. e eu só via a boca dele, mechendo apenas o necessário para revelar seu sotaque rio grandense, tchê. acabou ali. cada um seguiu seu destino. nenhum dos dois perguntou nomes. continuamos dois estranhos. melhor assim.

.av. paulista. lugar que esconde inúmeros mistérios. passei a tarde viajando por entre livros. embriagando-me com a mistura do cheiro de papel novo, café e chocolate. ah! a felicidade suprema! o estranho era só a vaga lembrança de uma beleza pra olhar. porque existem dois tipos de beleza. a primeira é a de olhar. assim, como acontece com um quadro raro no Museu do Louvre. apenas olhamos sem precisar tocar. no entanto, melhor mesmo é a segunda beleza: a de sentir. aquela que se torna bonita de tanto a gente olhar, mas que antes, já era bonita de escutar, de cheirar, de pegar. é a beleza que percebemos usando TODOS OS SENTIDOS. essa beleza eu também cheguei a ver naquele dia cinzento da av. paulista. senti, toquei, mas que pena é ela estar há alguns muitos kilômetros de mim.

.frustrações jornalísticas.

Publicado: 5 de dezembro de 2010 em Uncategorized

.a cada experiência jornalística que tenho, confirmo uma tese que venho levantando desde a minha primeira crise na faculdade. porque vocês sabem. na faculdade arranjamos uma crise todo semestre. não bastasse ter de passar um ano inteiro vegetando pra poder passar no vestibular, nunca temos a real certeza de que escolhemos o caminho certo. sabemos apenas que temos de passar no vestibular e entrar na faculdade se quisermos ser gente (e nem sempre conseguimos). e acabamos escolhendo assim, meio que de sopetão, por certas afinidades, pressões, dentre outros requisitos.

.já na faculdade, o primeiro semestre é só farra. é ali que começamos a iniciação alcoólica, cadeira  essencial no jornalismo. ainda estamos acostumados ao colégio, assim sempre tentamos chegar na hora certa e tirar boas notas.

.no segundo semestre, começam as crises. nenhuma cadeira é de jornalismo prático. o que você está fazendo ali, então? eu queria desenhar…

.no terceiro, você pegou o professor mais traumatizante da paróquia. ele disse pra todos ouvirem que você não sabia escrever e que nenhum jornal te contrataria…

.no quarto, você está pedindo penico e já não aguenta mais. quer desistir, mas é tarde. você já está no meio da faculdade. vai fazer o que? você já esqueceu como se faz uma regra de três, como vai fazer vestibular de novo? não mesmo…

.chega no quinto semestre aos trancos e barrancos. você é eficiente e nunca arrumou um estágio decente. é. é aí que começa a crise do estagiário. todos os seus amigos têm um, menos você…

.passada a crise do estágio(você consegiu arrumar o seu), no sexto semestre, você relaxa e cai de vez na bagaceira. é hora de chegar atrasado, faltar a aula e diminuir seu índice de rendimento acadêmico. você começa a viver.

. agora, já um quase formando, no sétimo semestre, começa a crise do TCC.  você, que agora mal pisa da faculdade, não sabe nem o tema de seu trabalho final, mas, se sabe, não tem nem ideia de como começá-lo. o pior é que você depende desse trabalhinho complicado do caramba se quiser ter o diploma em suas mãos. ah, mas a cerva com os amigos no bar é tão mais convidativa…

.você mal piscou os olhos e chegou o oitavo semestre. o TCC. lembra-se do TCC. você vai correr feito louco agora. sendo explorado no estágio fica mais difícil produzi-lo. dupla jornada e você ainda tem de dar atenção aos amigos. nessas horas você ainda arruma viagens pra ir. mesmo que queira ficar em casa, alguém vai te chamar. a tentação é maior que você. eis que surge a crise profissional. à beira da formatura… e cadê o emprego? nada garantido… você será mais um desempregado no mercado. é o canudo na mão e a mão no bolso… .eternamente essa mão no bolso.

.aí volto para a minha tese que diz: todo jornalista é frustrado (de certa forma). ninguém foi fazer jornalismo porque queria passar o dia inteiro numa redação barulhenta, correndo pra lá e pra cá, atendento telefonemas, ganhando pouco e blá, blá, blá. pode olhar para o seu amigo aí do lado na redação. ele adora música, sabe tocar violão, gaita, piano, o diabo a quatro. o sonho dele é viver de música. e foi ser jornalista por quê, meu deus? ora, fazer faculdade de jornalismo, querendo ou não, ainda dá mais status que uma de música. além do mais, ele pode escrever sobre música, entrevistar músicos e etc.

.quem é jornalista nunca é só jornalista. tem a sua amiga chef de cuisine, o cineasta, o fotógrafo, o designer, a artista plástica, a desenhista, a estilista e a mais comum de todas (estou me incluindo nessa): o escritor. é. desde criança eu queria escrever. tem faculdade pra aprender a escrever? não, mas tem jornalismo. é lá que é lá. e aqui estou eu, ainda sonhando em ser escritora, e sendo nas horas vagas.

.mas, no fundo, vou contar um segredo. despois das crises, a gente faz as pazes com esse tal de jornalismo. a gente se apaixona. apesar de pobres, seremos felizes. sabe por quê? porque essa profissão te possibilita ser o que quiser. ser cozinheira, escritora, médica, e etc. em qual profissão você poderia ter contato com todas as demais profissões? em qual profissão você ia poder escalar montanhas, conhecer o Roberto Carlos, comer grilo na Tailândia tendo tantos amigos e sendo convidado para festas e eventos de graça? ora, ser jornalista, tem suas vantagens…

.ser uma pessoa.

Publicado: 3 de dezembro de 2010 em Uncategorized

– você não vai?

-não.

-vai ficar em casa enquanto podia estar lá com todos eles?

-sim. não estou bem pra sair.

-mas você sabe que se saísse, melhoraria rápido…

-não sei. não sei.

-por que você faz isso? sabota a si mesmo…

-não sei. não tenho respostas pra tudo.

-você foge das pessoas. depois fica se lamentando de que eles vão embora…

-tá. eu sei.  é que eu não sei como lidar com isso tudo. minha cebeça fica um confusão. não sei agir com as pessoas porque minha cabeça é uma loucura só.

-você brinca com as pessoas. você as conquista e depois vai embora sem se importar.

-mas eu me importo sim. eu gosto muito delas. demais. por isso dói…

-é mais fácil ficar só, não é? não ter que dar satifações. não há cobranças de sentimentos ou ações para com os outros…

-talvez sim. talvez seja mais confortável em certas ocasiões. porque eu fico meio despirocado quando alguém me dá a responsabilidade sobre seus sentimentos. também não sei o que fazer com os meus… mas ser sozinho dói.

-então por que não sai dessa zona de conforto e parte pra luta?

-é que eu acho que rola um certo medo. é isso. acho que tenho medo de gente. 

-medo de elas estarem mentindo, fingindo ou de te abandonarem? por isso você as abandona primeiro?

-talvez. talvez sim. provavelmente sim.

-você é mesmo um coverde, hein?

-é. eu sei… mas também não precisa jogar na cara.

-e vai continuar assim?

-não.

-não!?

-não! c*****! o que você quer que eu diga, então? não vou continuar nessa. não quero e não posso. eu quero viver essa vida!

-isso! isso!

-quero me acabar de tanto viver. quero amar essas pessoas todas. quero viajar com elas, fazer festas. quero chorar com e por elas. odiá-las de vez em quando…

-ótimo! então saia! vá logo!

-droga! hoje não dá. eu tô com dor de barriga…

-logo agora?

-pois é. oh, meu deus. nunca pensei que fosse tão difícil ser uma pessoa…

***baseado em fatos reais