.com os dias contados.

Publicado: 21 de outubro de 2010 em Uncategorized

Saiu com cara de louca. Não me pergunte como é cara de louca. Quem é louco sabe, é o que importa. Com a cara de louca, foi obrigada a sair de casa. Há dias em que deveria ser proibido sair de casa. Não só para a integridade do louco que se aventura a deixar a alcova, quanto para a segurança da sociedade em geral. Que dia era aquele, meu Deus?

Uma casa de loucos. Melhor ir pra rua que acabar com o único resquício de sanidade mental que lhe sobrava. Há quem consiga raciocinar nessa hora? E trabalhar? Pobre não tem escolha não. Uma desgraça grande era nascer doido e pobre.

Naquele dia, tudo que era preciso era romper com as barreiras do superego, limitando-o à porcentagem zero. Nada de auto-repressão, que isso dá câncer. Se bem que se ela tivesse a certeza de morrer amanhã, a coisa não ia prestar. O negócio era esse não saber se ia demorar. Porque se fosse, não poderia se dar ao luxo de sair por aí aparentando sua loucura contida.

Ah, e se tivesse apenas um mês? Um mês? Jogaria tudo pro alto. Claro. Colocaria um tour pela europa no cartão de crédito em várias prestações . Não ia dar tempo pagar mesmo. Gastaria todas as economias. Diria a ele que o ama, afinal, não tinha nada a perder. Viveria. Sim, apenas viveria o que nunca viveu e acabaria com essa sensação frustrante da juventude jogada no lixo.

Mas, se, depois disso tudo, descobrisse que viveria ainda, e muito? Fudeu tudo? Depende do ponto de vista. Talvez fosse presa como estelionatária. Apesar de tudo, poderia dizer que viveu. Engraçado como a ideia de que podemos não existir amanhã muda tudo. Se nós tivéssemos somente um dia, finalmente conseguiríamos ser nós mesmos, por completo? Por que é preciso que acabe para poder decidirmos viver? Não podemos viver vivendo? Se não, melhor imaginar sempre que temos uma doença terminal, ou que uma cigana viu em nossa mão que sofreremos um acidente mortal. Deus deu à essa moça uma imaginação tão fértil e ela foi usar pra quê, senhor? Pra quê?

Continua com essa amargurante sensação de não ser ela mesma. “Isso não sou eu.” ela só queria ser. Só isso. Será que era pedir demais? Leu um salmo na Bíblia. Algo que dizia que o prazer da vida não vem de curtirmos tudo o que nos aparece, mas de falarmos e fazermos coisas boas. Será? Tanto que havia tentado viver a vida loucamente. Realmente não lhe trouxera prazer real. Apenas um prazer fingido, fugaz. Como ser você, moça, se nem mesmo sabe quem é? Mas como descobrir quem era? Talvez seja mais fácil que supunha. Seja apenas a resposta para a pergunta: o que eu faria se morresse amanhã?

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