Arquivo de 19 de outubro de 2010

.cecília e os sonhos de papel.

Publicado: 19 de outubro de 2010 em Uncategorized

 A luz vermelha no semáforo. Parada na calçada, a mulher de olhos de prata e vestido florido esperava o momento de cruzar a avenida. Durante os breves momentos de espera, afogava a mente em pensamentos antigos. Pôs os óculos escuros. O sol do meio-dia castigava a pele alva e fazia brilhar os cabelos negros. Ainda parada na calçada, descascava o esmalte vermelho das unhas. Só agora percebera que elas estavam um horror. Como sair mais tarde com aquelas unhas?

Luz verde. Pensamentos interrompidos. Caminhou sobre a faixa de pedestres com passos largos. Uma beatle solitária sem o casaco de frio. O sol do meio-dia castigando.

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Do outro lado da calçada, na praça, um casal de mendigos fazia amor. Deitados na grama, eles chocavam os transeuntes que não continham vaias invejosas. São levados pela viatura da polícia por praticarem amor ao ar livre.

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Mais adiante, ainda na praça, outro mendigo, de cabelos sujos e barba de profeta está sentado no batente da calçada. Pernas elegantemente cruzadas, tal qual um cavalheiro antigo,  o mentigo folheava um livro cheio de reproduções de obras de arte famosas. Era um mendigo letrado, ou apenas se encantara com as gravuras? De onde viera o livro? Ao seu lado, uma bolsa estampada. Sabe-se lá o que continha. Mais livros? Comida? Um gato morto?

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No café do lado, a mulher de olhos de prata espera alguém na mesa do canto. Pela expressão dela, deve estar atrasado. Ela descasca novamente as unhas. Pensa em algo. Dobra o guardanapo de papel. A sua frente, uma xícara de café repousa solitária. O café pela metade. A marca do batom vermelho na porcelana branca. O garçom aperreado com a grande quantidade de clientes. Os copos em cima do balcão brilhando. Talheres tinindo. Conversas superficiais e ininteligíveis. Chega alguém. Era ele. Senta-se na frente dela. Um homem alto, de cavanhaque. Roupa amassada. Tênis surrado.

-Pensei que não chegaria nunca.

– É que demoraram a fazer com que a gente se encontrasse. Acho que você é a mulher da minha vida. Devo ser seu namorado? Amigo? Amante? Pai? Irmão? Quero ser seu marido.

– Não. Não quero que você seja nada meu. Encontre o seu papel e desempenhe-o como queira. Faça-me sentir saudade. Obrigue-me a pensar em você. Faça-me sentir raiva e ciúme também. Simplesmente faça-me sentir.

Olho no olho.

-Pra onde voce quer ir?

-Não sei. Só me leva a algum lugar.

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Numa sessão no planetário, o avô e a neta observam o espaço sideral.

-Vô, pra que serve o céu?

– Pra cair chuva e… pra gente olhar.

– Coisa mais sem graça. Não gosto de olhar e não poder pegar.

– Nem eu.

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Na praça, a mulher de olhos de prata, de braços dados com o homem de cavanhaque pergunta ao mendigo letrado:

– Porque o senhor esta parado aí vendo esse livro.

– Porque é bonito, ora bolas.

– E por que o senhor não vai trabalhar ao invés de ficar vendo figuras?

– Sabe como é… como deus consente tudo, o diabo manda a gente fazer um bocado de coisa.

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No planetário.

-vô, como faz pra vender um filho?

– não sei. nunca vendi um.

-preciso de dinheiro.

-pra quê?

-pra comprar o amor.

-hmmm.

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No quarto,  Cecília abre os olhos. Levanta-se de sopetão e busca a caneta de tinta preta e o caderno vermelho de bolinhas brancas no criado mudo.

– A gente tem que anotar os sonhos, pra não esquecer.

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