.amor de rua.

Publicado: 12 de outubro de 2010 em Uncategorized

.esfregou as mãos sujas na roupa suja como se fosse, de alguma forma, conseguir limpá-las. pegou o recipiente laminado sobre o batente da praça e o colocou  em cima dos joelhos magros. abriu a tampa de papelão com o cuidado de quem abre um tesouro.

-senta aqui, fia! – chamou carinhosamente pela mulher sentada na grama – arranjei uma marmita só o mi pra nóis cumer. anda!

.em passos lentos, a mulher aproximou-se e sentou ao lado do homem. levava as roupas rasgadas e sem cor definida. era magra, velha e tinha a pele carcomida e ingilhada tal qual um maracujá murcho. os cabelos tentavam ser brancos, mas o longo tempo sem serem lavados deixara-os encardidos e sem-brilho. no entanto, a velha preservava nos olhos negros um brilho diferente que nem o tempo nem a penúria levaram.

-se chega fia. tem cumida que nem presta! sorriu o homem velho e sujo, tal qual sua companheira.

.não havia talheres. mas isso não era problema. as mãos estavam “limpas” agora, não estavam? ele deslocou a marmita para perto da mulher, dando-lhe direito a primeira “mãozada”. e seguiu o ritual da marmita de lá pra cá. uma mão na comida, outra na boca. a boca suja, limpa com as costas da mão também suja. pronto. acabou-se. o homem amassou a embalagem laminada e guardou dentro de um saco grande onde quardava outras milhares de quinquilharias.

– fia, vamo se deitar? – perguntou o velho, passando a mão no abdômen.

. a mulher assentiu com a cabeça e eles se dirigiram, de mãos dadas, ao gramado da praça. ali deitaram-se. o velho passou a mão pela cintura da mulher. beijo, ali, outro acolá. cheiro no cangote. dali há pouco, o casal de mendigos estava fazendo amor em plena praça. assim, ao ar livre, no maior estilo adão e eva no paraíso.  com a diferença de que havia pelo menos uma dúzia de passantes assistindo à cena de amor. vaias, gritos e o casal nem aí.

.em um instante, chegou a viatura da polícia e levou o casal de amantes. sentados em frente ao delegado, ficaram mudos de vergonha. não pelo que fizeram. serem presos é que era uma vergonha.

-qual o problema deles? – perguntou o delegado.

– atentado ao pudor. fazendo sexo em praça pública. -respondeu o guarda.

– e isso lá é problema! bando de gente invejosa! queriam mais é estar fazendo essas coisas aí pra todo mundo ver e nem em casa conseguem. tem gente que rouba na rua e nem é preso. porque eu vou prender quem faz amor? – disse o delegado soltando uma risada descomunal.  – vão logo antes que eu mude de ideia. ah, e não se esqueçam de usar camisinha da próxima vez!

-mas nóis usa, seu dotô. quando tem, nóis usa.

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comentários
  1. romulo disse:

    quase poético ver que a felicidade tá ali, apesar de todos os contratempos da vida.
    mas estão juntos e felizes. dá um belo de um roteiro.

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