Arquivo de outubro, 2010

.quando termina a noite.

Publicado: 29 de outubro de 2010 em Uncategorized

.à luz noturna parece que nossos instintos querem sair do corpo, feito suor em dia de calor, alma fujona. de repente, nos sentimos atraídos pelo perigo da noite, pelo perigo das pessoas noturnas. um breve e poderoso encantamento; atração que pulsa do mistério.

.à noite todos os gatos são pardos, já dizia minha mãe. tudo parece mais bonito, interessante, atraente. nesses momentos, se a gente não se segura, faz o que der na telha. seria capaz de beijar bocas inimagináveis, que proferem discursos apocalípticos. falaríamos coisas sem sentido. faríamos horrores. depois que passamos a frequentar a noite, nossos valores são revistos. pode-se fazer uma certa-grande confusão. conflitos internos sobre o ser/fazer. é difícil se controlar à noite. devo controlar esse ímpeto? por que controlar? viver o momento. daí pensamos nas cosequências diretas e indiretas. hesitamos. não fazemos. ainda bem. ou não.

.quando a lua está alta no céu, as entidades noturnas nos tentam. há ocasiões em que perder completamente a censura mental, explodir com seu id seria a felicidade suprema. pelo menos por instantes. será? a gente pode se enganar. dizer que sim. dizer que não. mas a gente é careta. se auto-censura. cala a boca com as nossas próprias mãos. essas pessoas da noite dão trabalho demais. tiram a gente do chão e nos levam aos anéis de saturno. já desejei as pessoas da noite. mas, no fim queremos a segurança de horários fixos não-fixos e da rotina sem rotina. queremos um amor descompromissado com compromisso. queremos saber pra onde e pra quem voltar quando a noite termina.

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.conspiração cor-de-rosa.

Publicado: 28 de outubro de 2010 em Uncategorized

.cheiro – café. abraço – amigo. música – pés. (escuto com os pés). vermelho – poder. nescau – infância. celular – desligado. computador – trabalho. tô atrasada. tô atrasada e ainda por cima distraída com meus pensamentos. novo joguinho mental: uma palavra que leva a outra. pelo menos não vou sofrer de alzheimer, ora bolas. bola – vôlei. odiava vôlei.

.chega o ônibus. adentro o recinto e vejo que, milagrosamente, ele não está tão lotado. mas também não tão vazio que eu possa sentar. fico em pé com a minha bolsa porta-defunto (para os que não entenderam, ela é GRANDE), segurando nas barras superiores do veículo.

.com o freio do ônibus, apoio a mão esquerda no assento. a mulher sentada olha para as minhas unhas. (pintei ontem de um rosa-laranja-chegay chamado ATREVIDA). logo depois olha para as dela. rosa-pink. passa a mão no cabelo pra disfarçar. Mas ela estava mesmo querendo ver se era igual. never que eu ia pintar minhas unhas com aquela cor.

.logo em seguida, olho para a esquerda. uma outra mulher estava me olhando. disfarçou olhando para a janela. olhei para as unhas dela. rosa. um rosa diferente dos outros dois. chiclé! o que era aquilo? algum código? por acaso era alguma conspiração do esmalte rosa? acabem com que usa o rosa ATREVIDA! iam me atacar? eu ia morrer? (rsrsrsrsrs).  no meio desses pensamentos lá se vai o ônibus. eu, que não satisfeita em estar atrasada, ainda tenho a audácia de passar da parada. bem feito. eu e esses meus pensamentos que não deveriam ser divulgados. #mulhertepreserva

.falando em pesamentos que deveríamos ocultar, eu vivo tendo desses. só que bem piores. hoje tive um. tô ficando com medo de mim, porque quase que eu externava. acho que meu id tá meio requenguela. perigo viu? já pensou se as pessoas ouvissem tudo que a gente pensa ou vissem tudo o que a gente faz? ainda bem que ninguém nunca me viu cantando no banheiro. ops…

.ps.: é com essa daí que eu fico cantando com meus pés. acho que finalmente encontrei a minha música… preciso nem dizer estou aí né?

.das diferenças: carta aos amigos.

Publicado: 25 de outubro de 2010 em Uncategorized

.fortaleza/25.10.2010

.amigos,

.sempre quis dizer esse nome com a certeza sentida não na ponta da língua, mas no coração e com aquela sensação besta de querer chorar. é o que acontece agora.

.demorou 21 anos para que eu pudesse realmente perceber e realmente sentir que encontrei pessoas que quero pra vida toda ao meu lado. se elas me suportarem, óbvio. posso dizer que me apaixonei perdidamente por 9 pessoas ao mesmo tempo. sim, pode me chamar de devassa.

.e tudo isso por quê? andei pensando. andamos pensando sobre isso. e a conclusão é que não tem explicação. coisa de conjunção estelar, destino, macumba, doença. chamem como queiram, pois é impossível dizer como isso aconteceu. amor se sente. só.

.mesmo sem explicação, compreendi uma coisa. essas pessoas, todas tão diferentes, tão belas em si, me apaixonam justamente por isso. por se aceitarem mesmo sendo tão distintos. não importa se você é psicopata, autoritário, passivo, ativo, amoroso, se é gordinho, magrinho, alto, baixo, religioso ou ateu, alegre demais, esculhambado ou introvertido. é como se fôssemos todos complementos uns dos outros. não sei se foi amor à primeira vista, amor bandido, amor-perfeito. não importa. sei que é amor.

.amor que é capaz de dar banho em quem bebe demais e fica bodado. amor que é capaz de ceder seu próprio jantar para quem perdeu a festa. que é capaz de cancelar qualquer compromisso para comparecer ao aniversário do outro. chorar em discursos, receber e dar críticas, ficar com ciúmes, ficar triste ou alegre pelo outro. amor que é capaz de sobreviver às diferenças.

.e o que junta todo esse balaio de diferenças? uma coisa simples chamada AMIZADE. esse amor muito menos egoísta e mais plural.  que reúne, que se preocupa, que forma uma grande família que chega a ser muito mais verdadeira em seus conflitos e paixões. porque é a família que a vida não nos obrigou a ter e sim a que nos deu a chance de escolher, de adotar, sejam irmãos, mães, primos, etc, etc.

.só quero agradecer a deus, aos céus, a vida, ao destino, às estrelas, a quem quer se seja responsável por isso. descobri que não é à toa que AMIZADE rima com FELICIDADE.

.ps: abraços, beijinhos e carinhos sem ter fim para gisa, deivide, erlon, emerson, damien, renan, amanda, willy e salvador.

.com os dias contados.

Publicado: 21 de outubro de 2010 em Uncategorized

Saiu com cara de louca. Não me pergunte como é cara de louca. Quem é louco sabe, é o que importa. Com a cara de louca, foi obrigada a sair de casa. Há dias em que deveria ser proibido sair de casa. Não só para a integridade do louco que se aventura a deixar a alcova, quanto para a segurança da sociedade em geral. Que dia era aquele, meu Deus?

Uma casa de loucos. Melhor ir pra rua que acabar com o único resquício de sanidade mental que lhe sobrava. Há quem consiga raciocinar nessa hora? E trabalhar? Pobre não tem escolha não. Uma desgraça grande era nascer doido e pobre.

Naquele dia, tudo que era preciso era romper com as barreiras do superego, limitando-o à porcentagem zero. Nada de auto-repressão, que isso dá câncer. Se bem que se ela tivesse a certeza de morrer amanhã, a coisa não ia prestar. O negócio era esse não saber se ia demorar. Porque se fosse, não poderia se dar ao luxo de sair por aí aparentando sua loucura contida.

Ah, e se tivesse apenas um mês? Um mês? Jogaria tudo pro alto. Claro. Colocaria um tour pela europa no cartão de crédito em várias prestações . Não ia dar tempo pagar mesmo. Gastaria todas as economias. Diria a ele que o ama, afinal, não tinha nada a perder. Viveria. Sim, apenas viveria o que nunca viveu e acabaria com essa sensação frustrante da juventude jogada no lixo.

Mas, se, depois disso tudo, descobrisse que viveria ainda, e muito? Fudeu tudo? Depende do ponto de vista. Talvez fosse presa como estelionatária. Apesar de tudo, poderia dizer que viveu. Engraçado como a ideia de que podemos não existir amanhã muda tudo. Se nós tivéssemos somente um dia, finalmente conseguiríamos ser nós mesmos, por completo? Por que é preciso que acabe para poder decidirmos viver? Não podemos viver vivendo? Se não, melhor imaginar sempre que temos uma doença terminal, ou que uma cigana viu em nossa mão que sofreremos um acidente mortal. Deus deu à essa moça uma imaginação tão fértil e ela foi usar pra quê, senhor? Pra quê?

Continua com essa amargurante sensação de não ser ela mesma. “Isso não sou eu.” ela só queria ser. Só isso. Será que era pedir demais? Leu um salmo na Bíblia. Algo que dizia que o prazer da vida não vem de curtirmos tudo o que nos aparece, mas de falarmos e fazermos coisas boas. Será? Tanto que havia tentado viver a vida loucamente. Realmente não lhe trouxera prazer real. Apenas um prazer fingido, fugaz. Como ser você, moça, se nem mesmo sabe quem é? Mas como descobrir quem era? Talvez seja mais fácil que supunha. Seja apenas a resposta para a pergunta: o que eu faria se morresse amanhã?

.cecília e os sonhos de papel.

Publicado: 19 de outubro de 2010 em Uncategorized

 A luz vermelha no semáforo. Parada na calçada, a mulher de olhos de prata e vestido florido esperava o momento de cruzar a avenida. Durante os breves momentos de espera, afogava a mente em pensamentos antigos. Pôs os óculos escuros. O sol do meio-dia castigava a pele alva e fazia brilhar os cabelos negros. Ainda parada na calçada, descascava o esmalte vermelho das unhas. Só agora percebera que elas estavam um horror. Como sair mais tarde com aquelas unhas?

Luz verde. Pensamentos interrompidos. Caminhou sobre a faixa de pedestres com passos largos. Uma beatle solitária sem o casaco de frio. O sol do meio-dia castigando.

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Do outro lado da calçada, na praça, um casal de mendigos fazia amor. Deitados na grama, eles chocavam os transeuntes que não continham vaias invejosas. São levados pela viatura da polícia por praticarem amor ao ar livre.

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Mais adiante, ainda na praça, outro mendigo, de cabelos sujos e barba de profeta está sentado no batente da calçada. Pernas elegantemente cruzadas, tal qual um cavalheiro antigo,  o mentigo folheava um livro cheio de reproduções de obras de arte famosas. Era um mendigo letrado, ou apenas se encantara com as gravuras? De onde viera o livro? Ao seu lado, uma bolsa estampada. Sabe-se lá o que continha. Mais livros? Comida? Um gato morto?

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No café do lado, a mulher de olhos de prata espera alguém na mesa do canto. Pela expressão dela, deve estar atrasado. Ela descasca novamente as unhas. Pensa em algo. Dobra o guardanapo de papel. A sua frente, uma xícara de café repousa solitária. O café pela metade. A marca do batom vermelho na porcelana branca. O garçom aperreado com a grande quantidade de clientes. Os copos em cima do balcão brilhando. Talheres tinindo. Conversas superficiais e ininteligíveis. Chega alguém. Era ele. Senta-se na frente dela. Um homem alto, de cavanhaque. Roupa amassada. Tênis surrado.

-Pensei que não chegaria nunca.

– É que demoraram a fazer com que a gente se encontrasse. Acho que você é a mulher da minha vida. Devo ser seu namorado? Amigo? Amante? Pai? Irmão? Quero ser seu marido.

– Não. Não quero que você seja nada meu. Encontre o seu papel e desempenhe-o como queira. Faça-me sentir saudade. Obrigue-me a pensar em você. Faça-me sentir raiva e ciúme também. Simplesmente faça-me sentir.

Olho no olho.

-Pra onde voce quer ir?

-Não sei. Só me leva a algum lugar.

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Numa sessão no planetário, o avô e a neta observam o espaço sideral.

-Vô, pra que serve o céu?

– Pra cair chuva e… pra gente olhar.

– Coisa mais sem graça. Não gosto de olhar e não poder pegar.

– Nem eu.

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Na praça, a mulher de olhos de prata, de braços dados com o homem de cavanhaque pergunta ao mendigo letrado:

– Porque o senhor esta parado aí vendo esse livro.

– Porque é bonito, ora bolas.

– E por que o senhor não vai trabalhar ao invés de ficar vendo figuras?

– Sabe como é… como deus consente tudo, o diabo manda a gente fazer um bocado de coisa.

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No planetário.

-vô, como faz pra vender um filho?

– não sei. nunca vendi um.

-preciso de dinheiro.

-pra quê?

-pra comprar o amor.

-hmmm.

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No quarto,  Cecília abre os olhos. Levanta-se de sopetão e busca a caneta de tinta preta e o caderno vermelho de bolinhas brancas no criado mudo.

– A gente tem que anotar os sonhos, pra não esquecer.

.do esquecer.

Publicado: 17 de outubro de 2010 em Uncategorized

.já pensou se, de repente, esquecêssemos de tudo o que vivemos? se, de repente, por conta de um acidentente, alzheimer ou qualquer droga que comesse nosso cérebro, perdêssemos todas as nossas lembranças, boas ou ruins? se nossa mente ficasse limpa de qualquer vestígio, seja de nossos erros ou acertos? já pensou se esquecêssemos todos a nossa volta?

.eu já. e fiquei imaginando um monte de coisa. primeiro a gente sempre acha que seria bom apagar tudo de ruim que aconteceu. mas, e depois? e tudo de bom que vivemos? vou esquecer quem sou, que a primeira palavra que falei foi anfíbio. isso mesmo: ANFÍBIO. vou esquecer meu primeiro amor, o primeiro livro que li(esse eu já esqueci),  todos os amigos que fiz, todos os amores que tive, mesmo com as tristezas no fim? é. acho que esquecer não é lá tão bom assim. porque, mesmo as coisas ruins, serviram para construir quem somos. não. não vou ser piegas. se a gente pudesse deletar certas coisas, ia ser bom demais, claro. coisas que limitam a gente, que acabam nos enchendo de medos e nos paralisando diante da vida. tem até gente que bebe, pra esquecer, e nem esquece…

.pois bem. supondo que não tivéssemos escolha. que roubassem tudo de nossas mentes. será que faríamos as mesmas escolhas? cometeríamos os mesmo erros e acertos? será que optaríamos pelos mesmos caminhos? amaríamos as mesmas pessoas? despertariam em nós os mesmos sentimentos de ontem? posso me apaixonar duas vezes por alguém? será que poderia amar as pessoas que odeio hoje, ou odiar a quem amo? será que as pessoas que estão na minha vida hoje se perderiam pra sempre?  são perguntas indecifráveis. irrespondíveis. então, já que tudo nessa vida tem 50% de chance de acontecer, fiquemos atentos. ame, odeie, despreze, brigue, xingue, sinta saudade, ciúmes, chore bastante pelas pessoas hoje, pois pode ser que tudo mude. amanhã você pode nem saber mais quem elas são.

.mutantes.

Publicado: 14 de outubro de 2010 em Uncategorized

.acordei com um gosto amargo na boca. um asco de impotência diante do mundo. com um niilismo cruel.desculpem essa incontida vontade de chorar. não. não estou na cadeira de um analista. estou deitada na rede pensando no que será de mim agora.

.encontro-me aqui tal qual um bezerro desmamado, criança que descobriu que papai noel não existe, lutador de boxe que foi pego de surpresa em nocaute. levei um soco de alguém chamado realidade. ah, e a realidade dói, posso garantir.

.eu, que sempre gostei de um pouco de fantasia, percebi que há momentos em que não podemos fechar os olhos e ficarmos imersos em um sonho irreal. também é necessário por um pouco de poesia na vida, senão ela se torna intragável, indigesta.

.estou me sentindo doente de uma doença que não tem nome. talvez vergonha, medo, raiva, asco também. de repente me bateu essa vontade aquariana de mudar o mundo, mas, não poder, dói. dói na boca do estômago e sinto novamente essa vontade de chorar. em que mundo nascerão as crianças? em que espécie de lugar feito de mentiras e corrupção? é angustiante e doloroso não saber em quem e em que acreditar.

.hoje o mundo está pálido, desbotado. quebrou-se o encanto da vida. por hoje, não sei o que fazer. que sentido há se tudo parece mentira? não há mais chão onde pôr os pés.

.espero mudar mais tarde, quando descer dessa rede e enfrentar mais essa “alba sanguínea”. .espero achar graça na vida de novo. espero colocar lirismo na dor e encontrar, de alguma forma, algo de bom pra me prender. a esperança se escondeu de mim. cadê o amor? cadê a verdade do mundo? não quero essa, mas também não posso recusá-la. eu só queria poder mudar alguma coisa. tudo que eu deveria fazer agora era continuar. talvez, fingir que nada aconteceu, que nada vi, que não tem nenhuma marca na minha cara. mas não dá. quando a gente perde “isso”, não tem mais volta. meus olhos mudaram. eu mudei. ainda bem que somos mutantes.

.conversa lunar.

Publicado: 13 de outubro de 2010 em Uncategorized

– tia, por quê a lua tá só um fiozinho assim, parecendo pedacinho de unha cortada?

– hm… é que ela esqueceu de comer essa semana e ficou magrinha assim. então, vamos comendo cabritinha?

– mas tia, por quê a maria luisa não pode vir brincar agora?

– porque ela tá dormindo. sabe como é. ela é fraquinha. precisa dormir. a gente não.

– já terminou de trabalhar?

– não. ainda não.

-esse trabalho não termina nunca… quando eu crescer não quero mais estudar…

– que é isso menina? tem que estudar sim.

– tia, como faz pra vender um filho?

– menina! não fala isso nem de brincadeira. ninguém vende filho. vai ser o quê quando crescer? médica, dentista, veterinária, cientista?

– aposentada igual ao vovô. pra ganhar dinheiro e não trabalhar.

– é… eu não tinha pensado nisso. seria uma boa. mas tem que trabalhar antes pra poder se aposentar.

-então eu vou ser motorista de caminhão.

-é. legal…

-tia…

– come menina.

-pera. eu tô cheia.

-mas nem comeu nada ainda.

-mas eu tô cheia. respirar enche a barriga da gente. olha. 

– mas também esvazia logo. come, senão não vai crescer.

– eu não quero crescer.

-faz bem… mas a gente precisa comer pra ter energia pra brincar também. ou então fica doente e fraca. não vai poder fazer todas as coisas que  gosta.

– tá. mas, tia, brinca de barbie comigo?

– mais tarde.

– o céu tá bonito.

– verdade.

-tia, quando você tá no avião, bem assim, altão, você pode esticar o braço e pegar a lua?

-bem que eu queria. queria mesmo, mas tem vidro nas janelas do avião.

-e não pode abrir?

– não. além do mais, a lua tá tão longe ainda. não dá pra pegar.

-eu ia pedir pra  trazer pra mim. mas assim é melhor. o céu ia ficar feio sem ela.

.amor de rua.

Publicado: 12 de outubro de 2010 em Uncategorized

.esfregou as mãos sujas na roupa suja como se fosse, de alguma forma, conseguir limpá-las. pegou o recipiente laminado sobre o batente da praça e o colocou  em cima dos joelhos magros. abriu a tampa de papelão com o cuidado de quem abre um tesouro.

-senta aqui, fia! – chamou carinhosamente pela mulher sentada na grama – arranjei uma marmita só o mi pra nóis cumer. anda!

.em passos lentos, a mulher aproximou-se e sentou ao lado do homem. levava as roupas rasgadas e sem cor definida. era magra, velha e tinha a pele carcomida e ingilhada tal qual um maracujá murcho. os cabelos tentavam ser brancos, mas o longo tempo sem serem lavados deixara-os encardidos e sem-brilho. no entanto, a velha preservava nos olhos negros um brilho diferente que nem o tempo nem a penúria levaram.

-se chega fia. tem cumida que nem presta! sorriu o homem velho e sujo, tal qual sua companheira.

.não havia talheres. mas isso não era problema. as mãos estavam “limpas” agora, não estavam? ele deslocou a marmita para perto da mulher, dando-lhe direito a primeira “mãozada”. e seguiu o ritual da marmita de lá pra cá. uma mão na comida, outra na boca. a boca suja, limpa com as costas da mão também suja. pronto. acabou-se. o homem amassou a embalagem laminada e guardou dentro de um saco grande onde quardava outras milhares de quinquilharias.

– fia, vamo se deitar? – perguntou o velho, passando a mão no abdômen.

. a mulher assentiu com a cabeça e eles se dirigiram, de mãos dadas, ao gramado da praça. ali deitaram-se. o velho passou a mão pela cintura da mulher. beijo, ali, outro acolá. cheiro no cangote. dali há pouco, o casal de mendigos estava fazendo amor em plena praça. assim, ao ar livre, no maior estilo adão e eva no paraíso.  com a diferença de que havia pelo menos uma dúzia de passantes assistindo à cena de amor. vaias, gritos e o casal nem aí.

.em um instante, chegou a viatura da polícia e levou o casal de amantes. sentados em frente ao delegado, ficaram mudos de vergonha. não pelo que fizeram. serem presos é que era uma vergonha.

-qual o problema deles? – perguntou o delegado.

– atentado ao pudor. fazendo sexo em praça pública. -respondeu o guarda.

– e isso lá é problema! bando de gente invejosa! queriam mais é estar fazendo essas coisas aí pra todo mundo ver e nem em casa conseguem. tem gente que rouba na rua e nem é preso. porque eu vou prender quem faz amor? – disse o delegado soltando uma risada descomunal.  – vão logo antes que eu mude de ideia. ah, e não se esqueçam de usar camisinha da próxima vez!

-mas nóis usa, seu dotô. quando tem, nóis usa.

.escolhas.

Publicado: 11 de outubro de 2010 em Uncategorized

.encostei o peugeot cinza em frente à livraria. olhei no relógio. faziam uns poucos segundos que esperava. parecia uma eternidade. cinco anos era tempo demais! olhei para o relógio de novo, como se eu tivesse o poder de fazê-lo acelerar. não tinha. mais espera.

.sete minutos. meu deus! há apenas sete minutos eu estava ali? o tempo só podia estar de brincadeira comigo. mas quem espera cinco anos, espera mais um pouco. na verdade, acho que esperei 31 anos; uma vida inteira.

.abriu-se a porta! é agora! coração queria sair pela boca! agora não! um enfarte agora não dá! calma. a vida estava em slow down. que engraçado! pensava que isso só acontecia em filme! uma perna de mulher cruza a entrada. era ela. jamais esqueceria aquelas pernas. senti um calafrio subir pela espinha e vir esfriar minha cabeça fervente.

.ela passou pela porta. cabelos negros e esvoaçantes brilhando sob o sol. a luz criava um efeito espetacular com fios avermelhados queimando a minha retina. a pele alva parecia ainda macia de longe. a imagem, congelada, mostrava uma figura feminina, de estatura mediana, mas de uma beleza que nada de mediana tinha. cintura fina, quadris bem-desenhados, silhueta de deusa. nem precisei olhar para o rosto para saber que era ela. no entanto, olhando para o rosto, percebi que o tempo não tinha sido cruel com ela  como havia sido com as minhas marcas de expressão na testa. os olhos grandes e negros ainda eram cheios de fascínio. e a boca! meus deus! aquela boca despertava até defunto do caixão (com o perdão do palavreado vulgar). o batom, como sempre vermelho, só pra provocar. daquele jeito com uma intenção não intencionada. ela sabia que era linda naquele vestidinho simples de algodão estampado com flores minúsculas como o seu pezinho de cinderella.

.naquele curto instante, paralisado e sublime, apaixonei-me por aquela mulher. a olhei como se fosse a primeira vez e nem era. só deus sabe quantas vezes eu a tinha visto, porém parecia mais linda, mais dona de si a cada momento breve em que eu a admirava. 30, 40, 50, mil vezes eu me apaixonara? o que era esse peso comprimindo meu peito? por quê essa vontade tão grande de chorar feito um menino sem mãe? aquela mulher era tão linda que fazia doer cada parte de mim e eu tentava suprimir meu choro, sem conseguir. uma lágrima rolou pela minha face misturando-se ao suor nervoso. parecia que aqui dentro ia tudo se explodir.preciso casar com essa mulher!

.não casei com essa mulher. nem com essa e nem com todas as outras pelas quais me apaixonei. não sei o que acontecia comigo. cada pessoa que eu conhecia era como um encanto. que coisa mais bela essa criação de deus. tenho a impressão de que, quanto mais mulheres eu visse, mais vezes me apaixonaria. todas pareciam tão especiais, tão belas a sua maneira, tão perfeitas! de repente eu encontrava uma outra, e mais outra. para quê me quedar com apenas uma pelo resto de minha vida se eu tinha o mundo a explorar! se eu tinha milhões de outras mulheres por me apaixonar! o que eu sempre fiz na vida foi isso. amar. amar demais.