Arquivo de agosto, 2010

.ninguém na espera.

Publicado: 14 de agosto de 2010 em Uncategorized

.dia 13 de agosto. sexta-feira 13. quer mais macabro que isso? viajar para mogi das CRUZES nesta mesma data. agosto, mês do desgosto. sai daí uruca! nunca fui supersticiosa. se fui, sempre tive coragem de enfrentar medos. no entanto, confesso que, sentada do lado da janela do boeing da TAM, fiz o sinal da santa cruz e rezei para garantir boas vibrações para a viagem.

.20h55min. hora de voltar. no aeroporto, lembrei de filmes americanos. a solidão é assim, faz você pensar besteiras. pensei que quando voltasse, ninguém estaria me esperando ansioso no desembarque. não haveria rosas, abraços, beijos, muito menos lágrimas. ninguém teria sentido saudade. ninguém sofrera com a minha falta. tudo bem, não foram nem 24hs, mas deixem-me fazer o meu drama. deixem-me exagerar.

.finalmente o avião decola. as luzes parecem toalhas de rendas brilhantes. penso no que não deveria pensar. porque algumas pessoas acham que merecem nossos pensamentos mesmo em lugares distantes e em momentos cheios de despropósito? quando tenta não se pensar, mais se pensa, então jogo a toalha.

.não só penso, como sonho, e, de repente, vejo-me na mesa de uma sala de estar que não é a minha. sobre ela, um café apesar de doce, levemente amargo e ácido, como é o gosto da vida. o líquido derramado escorre vagarosamente até manchar a toalha branca, deixando-a marcada com tons amarronzados e amarelecidos. toquei o café com a ponta dos dedos e ele era quente. lembrei do conforto da cafeína nas veias de um moribundo de frio. logo escuto galos cantando e desperto com o comandante a dar-nos boas-vindas de volta à Fortaleza.

Anúncios

.eu amei jesus.

Publicado: 12 de agosto de 2010 em Uncategorized

Êta cidadezinha sem graça

Não só faltou ônibus,

Como a luz se acabou na praça

Aquela onde esperava por Jesus

Jesus era o trocador

Todo dia eu o encarava

com certa tristeza e amargor,

pois Jesus, me olhava,

mas não era meu amor

Jesus, é na próxima parada

Disse com melancolia

Fora a última olhada

Nem amanhã eu o veria.

Circular, por aqui fico eu

Ainda bem que mudei de emprego

Fui embora, peguei o beco

mas em Jesus nem doeu

Primeiro dia, que susto tomei

O colega que sentou vizinho

Não era Jesus, mas era o Deusinho.

De novo me apaixonei.

(uma homengem à greve de ônibus)

.hiperatividade mental.

Publicado: 12 de agosto de 2010 em Uncategorized

.vamos fugir, beibe, desse lugar… já sentiu vontade de não estar nesse lugar agora, qualquer que ele seja? eu já. várias vezes. e sinto isso neste momento em que vos escrevo. vontade de não estar nesse lugar, nessa cidade, nesse estado e, quem sabe, neste país. dá pra visitar outro planeta também? dá. dá sim.

.viajar é comigo mesmo. gente que tem seu próprio mundo paralelo dá-se ao luxo de deixar este mundo ingrato na hora que bem entende. tudo bem que às vezes isso não é saudável, mas valá. todos temos nossa hora de “descanso”.

.em meio a trocentas coisas a serem feitas, arranja-se tempo para “pular fora”. os pensamentos viajam. eu viajo. se tivesse um controle de pensamentos, acho que não poderiam contar os meus. é um turbilhão. uma máquina de fazer pensamentos que não pára, nem ao dormir. é cada coisa absurda, hilária e vergonhosa. é cada coisa sem sentido. medo de mim.

.quantos seriam? 300 por minuto? ah…pode ser exagero, mas é quase isso. o problema é que há certos pensamentos que são fixos e que têm de ser pensados mais de uma vez no dia, ou que duram mais do que deveriam. sou uma mente inquieta. não há como segurar.

.hm..poderia eu projetar meus pensamentos, planejá-los? mas se eu penso em planejá-los já não tenho controle sobre esse pensamento em planejá-los. vamos pensar um pouco: se eu penso em não pensar, logo penso no que não queria pensar e então, tudo foi por água abaixo. ah, isso cansa. acho que estou mais hiperativa que o habitual. aqui vou eu, beibes, boa sorte para quem tantar me segurar. como uma menina danada, eu tô doida pra fazer arte.

.pequenos prazeres.

Publicado: 11 de agosto de 2010 em Uncategorized

.depois de ventos e tormentas, a tempestade sempre passa. tudo sempre passa, por pior que possa parecer. sentir-se bem de novo é a melhor sensação que se pode ter. o que fica são lembranças. escolha se vão ser as boas ou ruins.

.hoje acordei de bom humor. não estava impaciente nem nervosa. cumprimentei a moça no espelho. meio menina, meio mulher. pela primeira vez em pouco tempo, gostei do que vi. admirei-a. ela estava bonita. bonita porque sorriu para mim e eu sorri de volta para ela.

.a alegria voltou a correr nas minhas veias. desintoxiquei-me da angústia e do medo. o remédio nem sei direito o que foi. talvez uma mistura de sorrisos, palavras, abraços, novos sonhos e deus.

.a serenidade bateu na minha porta hoje. deixei ela entrar. não que a loucura tenha ido embora. mas é que a loucura boa, essa deve sempre permanecer. essa loucura que nos move para propósitos mais ambiciosos e que nos faz sentir vivos de novo. sem precisar de outrem pra ser feliz.

.hoje enchi minha alma de novos planos e de sensações gostosas.  como aquela do frescor de bolhas de gás de refrigerante fazendo cócegas na garganta. como a sensação de conforto do café quente em pleno frio. se bem que um abraço nessas horas cairia bem melhor.

.hoje acordei mais eu. mais leve, mais livre. mais dona dos meus desejos. hoje eu acordei mais Amélie.

.resquícios de saudade.

Publicado: 10 de agosto de 2010 em Uncategorized

senti-me esquecida pelos olhos teus
o momento que antes um sonho se parecia
transformou-se no pesadelo de um adeus
no caminho pelo qual mais temia

tão pouco tempo e alegrias se passaram
o tempo que pra mim era eternidade
separados, as horas se arrastaram
juntos, em minutos era saudade

você se foi sem mais explicações
como se nada houvesse ocorrido
meu mundo foi só lamentações
que pena tudo logo ter morrido

o que não morreu em mim foi a saudade
mas,adeus, meu querido, au revoir
seguirei o meu caminho
não que eu não queira esperar
mas a impaciência é grande
só não é maior que a saudade que me dá

.abstinência sertralínica.

Publicado: 9 de agosto de 2010 em Uncategorized

.pensei que era abstinência sertralínica, mas nem era. aquela angústia sem explicação tinha explicação. o medo, o nó na garganta e o peito apertado, o estômago dando reviravoltas, eram fruto do que eu não queria enxergar. não era a falta da tia lina. era frescura de mulher.

.frescura de mulher porque só mulher é tão burra para sentir certas coisas, para dar valor a certas pessoas e momentos, para esperar, projetar e viver coisas que só vivrá em sonho. só mulher pra ser besta em acreditar em qualquer palavra gentil. só mulher para esperar, esperar e esperar.

.a minha crise, era crise de mulherzinha. ainda bem que essa mulherzinha é caso raro e logo eu viro mulher-macho, sinsinhô. vamos brincar mais e levar menos as coisas a sério. voltar a mandar no pedaço. eu nunca tive gênio bom. sempre fui teimosa. as coisas têm de ser do meu jeito, senão não. é tchau e foi (sem volta). 

.drummond me conhecia.

Publicado: 6 de agosto de 2010 em Uncategorized

.conheci drummond em outras vidas. eu sei. ele sabia. a gente era um pouco igual.

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional…

Carlos Drumond de Andrade

.milhões de pensamentos.

Publicado: 6 de agosto de 2010 em Uncategorized

.pela primeira vez em anos, demorei para dormir. não lembro que horas eram quando deitei na cama para cumprir tabela. também não sei que horas eram quando o sono interrompeu meus pensamentos. antes, lembro só de uma tremedeira incontida nas mãos como uma velha com parkinson ou em uma crise de abstinência qualquer.

.pensei em tantas coisas. mil vezes pensei no passado. mil  vezes pensei no futuro. esqueci do presente. mil vezes pensei em deus, outras mil, temi o diabo. algumas quis morrer, no entanto, o viver era mais forte. quis viver, viver e viver. pensei em chorar, mas eu já tinha chorado. senti vontade de gargalhar das infâmias do mundo. mil vezes imaginei momentos, desenhei cores. mil vezes pensei nos outros. mil vezes pensei em mim. mil vezes pensei na tristeza. mil vezes desejei ser feliz. pensei nos meus amigos.

.depois de tanto pensamento, a cabeça dói. depois de tanto pensamento, joguei o medo fora. abraçei a vida. dizem que com quem mais brigamos é a quem mais amamos. briguei tanto com a vida por demais amá-la. viver é um ato egoísta. amar também. e medo não combina com nada disso.

.medo castra, oprime, tolhe, aperta, sufoca, paraliza. medo mata. eu quero alguém perto de mim pra me sentir feliz, logo sou egoísta. se não quero ficar perto de alguém por medo, sou egoísta, pois não quero  sair do conforto da minha vida morna e me jogar no incerto. felicidade não é certeza. amar não é certeza. sonhar não é certeza, nem viver é. não há garantias. ou se joga, ou não se concorre ao prêmio final.

. se tenho medo de magoar alguém é porque não quero me sentir mal comigo mesma. não quero fazer o papel de vilão da história, logo, sou egoísta. corres riscos. sim. correr riscos. viver é amar e odiar. amar é magoar e ser magoado. há muito não me importo mais em ser a vilã da história.

.flor de pequi.

Publicado: 5 de agosto de 2010 em Uncategorized

.no silêncio completo só se consegue distinguir dois sons: o tic-tac do relógio (se você tiver um) e a sua respiração (se você estiver vivo). naquele instante podia escutar além desses dois, o baticum do coração quase saltando pela boca. no entanto, o nó na garganta o deixava impossibilitado de ser cuspido corpo afora.

.a mente girando feito barata-tonta, explodindo de lembranças e mais lembranças com e sem sentido. começa então a hora de planejar a própria morte. não. do jeito que a morte é mulher geniosa, periga te deixar num suicídio frustrado. melhor se aquietar.

.você descobre que três alprazolam não lhe servem de nada, porque você continua pensando racionalmente”. nada de dormir. ou é placebo ou você deve ser um cavalo. pois bem. não adianta pensar em nada mais. quem disse que nessas horas dormir é fácil? depois de não pensar mais em dormir, dorme-se e se acorda atrasado para o trabalho no dia posterior. bem feito.

.não satisfeito com tal momento de angústia, de repente você se vê em um lugar sombriamente charmoso. sim, você sempre teve uns gostos estranhos. era bem capaz de você dançar ali mesmo ao batuque do crioulo doido e encarnar a pomba-gira.

.suspense. tensão. o cheiro forte da parafina queimando. as velas como oferenda a um deus morto. pimentas vermelhas. um corpo sem cabeça. uma cabeça sem corpo. você ali. fale-me da semiótica.  cânticos entoados aos loucos. gente nem tão conhecida assim. flor de pequi. flor de pequi. pequi com feijão. de fato, você odeia pequi. vai-se a flor, fica-se o fruto. é tarde. faça então cara de paisagem pra vida que ela finge que é sua melhor amiga. a gente finge bem.

.anoitecer.

Publicado: 1 de agosto de 2010 em Uncategorized

.o espelho refletia as matizes de um anoitecer solitário. o crepúsculo mais belo e triste do qual lembrava ter presenciado. traziam-me na mente um bolero qualquer. tratava-se de um pôr-do-sol duplamente visto por esses olhos verdes e míopes. à esquerda, uma cópia espelhada. à direita, o espetáculo original, que, assim, como o pecado, era casto e sublime.

.do amarelo, brotava o laranja que, em seguida, se sobrepunha ao vermelho, imediatamente se transformando em tons de lilás e azul anil. o que faltava àquele céu eram umas poucas estrelas as quais dessem a ele o brilho dos apaixonados.

.entretanto, os apaixonados estavam lá de fato. em um ponto, os galanteios do astro-rei,  davam lugar à beleza invejável e desdenhosa a Lua. dois amantes de um amor proibido e intocável.

.e eu fitava com inveja os dois amantes durante o fenômeno crepuscular, ao qual assistia de camarote através da janela de minha alcova solitária, onde a única coisa que me sorria era o mix colorífero tingindo  a paisagem vespertina. porque, durante a noite, todos os gatos são pardos e, pela manhã, quando acordada estivesse, nada mais pareceria tão sublime. todas as coisas se resumiriam às faixas vermelha e preta pintadas nas pequenas caixas sobre a mesa de jantar.

.as flores estariam pálidas. a intensa luz do sol me cegaria e já não veria o brilho da Lua.  Camélia perderia o “C”, deixaria  de ser flor e viraria gente, dessas que são meros rascunhos jogados no lixo do divino céu.