Arquivo de 21 de agosto de 2010

.l’étrangère.

Publicado: 21 de agosto de 2010 em Uncategorized

.nenhuma pegada além da minha. na areia, nenhum passo acompanhava os meus. seguia na minha solidão necessária. depois de tanto caminhar, o cansaço se apoderou de minhas pernas trêmulas. sentei em um banco e fechei os olhos para sentir a brisa vespertina. logo depois, de olhos abertos, o sol vem para cegar-me  por alguns instantes. vi pequenas luzes que se imprimiam nas retinas míopes, num efeito óptico.  mesmo se fechasse os olhos novamente, elas continuariam lá.

.uma lágrima desceu tímida sobre as bochechas rosadas pelo esforço físico. meu olhar perdido e estrangeiro fitava o nada, pois as árvores estavam ali, no entanto, pareciam apenas hologramas de algo imaginado.

.agora, sob a água do chuveiro, tentava lavar a alma suja. meu pranto se misturava, confundindo-se com o jato d’água que caía sobre meu corpo nu. por que chorava essa jovem mulher? chorava por não mais compreender o mundo. não entendia as pessaoas, os sentimentos. tudo parecia-me tão distante. sentia um asco de viver. os sentimentos não mais importavam, pois os gestos eram mecânicos. o beijo era sem gosto. o sexo era necessidade como a que se tinha de comer. não precisavam mais de olhares. nem de tempo desperdiçado. é tudo instantâneo nesses novos tempos. a cabeça tentava entender. o estômago tentava engolir aquilo tudo, mas sentia uma ânsia de vômito. queria vomitar a vida que se apresentava diante de seus olhos.

.sentia-me uma estrangeira de lugar nenhum. sem pertença, sem laços. era como um pássaro perdido num bando de aves descontroladas e sem rumo. lembrava como tudo parecera estranho naquele dia. as pessoas eram estátuas de cera. lembrei do velho desdentado que me sorriu como se me conhecesse de outras vidas. pensei no homem gago que discutia ao telefone sentado em um fusca cor de abórora. e haviam 7 carros cor de abóbora enfileirados na rua. o cachorro peludo e branquíssimo corria atrás de balões amarelos e violetas. uma criança corria atrás do cachorro. lembrei que, ao olhar a criança, chorara. chorara por que queria ser de novo criança. tinha saudade da menina aprisionada dentro de mim. “vamos criança,volte. vamos brincar de mãos dadas o jogo das 7 princesas encatadas”.

.ainda chorava como criança debaixo do chuveiro. meu coração era pequeno demais para suportar o peso do mundo. meu coração era sensível demais às influências exteriores. sangrava, e o líquidovermelho se esvaía misturando-se e diluindo-se entre água e lágrimas.

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