Arquivo de abril, 2010

.adoro essa vida profana.

Publicado: 20 de abril de 2010 em Uncategorized

.não sei o que me dá na cabeça às vezes. tenho ímpetos e desejos fugazes de gente profana. não me leia desse jeito. estou aqui fazendo esse blog de divã e revelando meus segredos mais obscuros.

.vou explicar melhor. tem uns dias em que eu, fazendo meu trajeto cotidiano, sinto umas vontades estranhas. uma vontade louca de beijar estranhos na boca. pronto. falei.

.confesso que estou um tanto quanto envergonhada, mas é a pura verdade. senta um estranho do meu lado no ônibus. olho pra ele. já percebeu que as pessoas têm sempre alguma coisa (mesmo que só uma) muito bonita nelas? aquela coisa que chama a atenção. uma mão. a sobrancelha, os olhos, os dentes, os braços, o cabelo, a voz. sei lá. qualquer coisa boba assim. eu logo me dou conta desse detalhe e não consigo parar de olhar.

.hoje olhei pra um estranho na parada do ônibus. ele não tinha nada demais. nada mesmo. só uma boca muito, mais muito interessante. como criança que acabou de chegar no mundo e está descobrindo a vida ao redor, sinto vontade de sair provando, cheirando, pegando, ouvindo tudo que vejo.

.não. também não estou subindo pelas paredes nem sou pervertida. quem me conhece sabe da moça careta que eu sou. o negócio é bem diferente. é um desejo (in)controlável de estar perto das pessoas. perto até demais. é um encantamento súbito. é um enamoramento fugaz e insano que dá e passa. mas que eu sei que, se eu tivesse um tantinho assim a menos de juízo, não ia prestar.  eu sei. não ia mesmo.

.meu deus, o que é que eu tô escrevendo? ah! nem aí. é a verdade mesmo. quem mandou eu não ter senso de  mico nem veronha na cara. que eu posso fazer se saio por aí apaixonando e desapaixonando a torto e a direita. posso ter amado você hoje, por uns 15 minutos, quem sabe. talvez ontem, ou amanhã. nem sei. aiai…adoro essa vida profana!

.a morte da bezerra.

Publicado: 20 de abril de 2010 em Uncategorized

.desde que o mundo é mundo, a morte da bezerra sempre foi tema para o pensamento humano. na verdade, para a falta dele. quem não pensa em nada ou sofre do mal do pensamento perdido está sempre com a morte da coitada da bezerra na cabeça. sempre a bezerra. mas, por que ela? não poderia ser da pata, da cachorra, da baleia?

.por essas e outras, começo a me lembrar de uma certa moçinha um tanto quanto distraída. muitas coisas logo faziam-na se encaixar no perfil da própria aquariana. o simples fato de pensar constantemente na morte da bezerra era um deles.

.o avoamento aquariano é uma coisa no começo até engraçada. uma ida à padaria se transformar em uma ida à farmácia é fichinha. passar da parada do ônibus ou até mesmo pegar o ônibus errado.  chegar a algum lugar e não lembrar exatamente o que lhe levou até ali. entrar na sala de cinema e só depois de 10 minutos de filme perceber que não era aquela a certa.  ir lavar o rosto e acabar escovando os dentes pela segunda vez. tirar a roupa e vesti-la  novamente. sair com o objetivo de pegar uma escova de cabelos no quarto e terminar com a porta da geladeira aberta, são simples ocorrências do cotidiano que denunciam a aquarianiedade da pessoa.

.quando digo que isso pode ser perigoso, falo de possíveis acidentes. aquariano atravessando na rua é um perigo, beibe. é viver na eminência de um atropelamento. nem bicicleta escapa. tropeçar, cair na escada então…Aiai…ser aquariano dá um trabalho!

.e quando se lê um texto e as letrinhas começam a tomar outras formas. a bezerra invade de novo os pensamentos e quando  menos se espera, já foi. tem que reler tudo, pois você absorveu qualquer coisam menos o que “leu”.

.não fiquem tristes aqueles que convivem com os aquarianos se eles, por acaso esquecerem seu aniversário, ou até mesmo que iam no cinema com vocês e acabar indo comprar cachorro quente ali na esquina. não é por mal. simplesmente acontece. sabe por que? porque aquarianos não têm controle sobre  seus pensamentos e, muito menos pelos rumos de suas mentes inconsequentes. é culpa da bezerra. tudo culpa da bezerra!.ps.: qualquer semelhança, queridos…juro que é mera coincidência.

.freud e o pecado original.

Publicado: 19 de abril de 2010 em Uncategorized

.desde que eu tinha uns 10 anos, começei a fazer meus questionamentos sobre deus e, principalmente sobre a religião católica, pois é a que conheço bem. fiz tudo certinho. fui uma católica que se batizou, fez primeira eucaristia e até crisma, mas tinha sempre uma coisa ali que me inquietava.

.nunca deixei de acreditar em deus e isso me conforta. com quem eu briguei foi com a religião que desde sempre me sufoca. o que era pra ser libertação, para mim, parece mais prisão que aliena. tudo bem que muita gente encontra na fé, a força para continuar vivendo. no entatanto, para mim, fé está bem separada da religião.

.muitas coisas sempre me inquietaram. uma delas era a existência de deus. mas, aos poucos, fui percebendo que, para mim, isso é inquestionável. questão de crença. sem preconceitos, certo? já viu a beleza das árvores, do sol e do mar? da borboleta que pousa nas flores, do canto dos pássaros? já prestou atenção na beleza e complexidade do homem? como poderia um ser como esse…surgir assim, do que os cientistas dizem ser conglomerados celulares. não. acho que não. de alguma forma, algo teve que ter sido criado, agora se foi do jeito que a bíblia diz, aí são outros quinhentos.

.sabe a história de adão e eva? pra mim não passa de história pra tapear os bestas. como pode tudo ser pecado? pra fim, a deturpação do que é o amor sexual é que faz a diferença entre o ser e o não ser. se sexo fosse pecado, por que deus teria inventado essa única forma para a reprodução de animais e, inclusive do homem? se fosse, ele teria arrumado um jeito de a gente ter filho por osmose, ou quem sabe, por brotamento. talvez como as plantas? encostando um dedo no outro? sei lá.

.sei que sexo pra mim, é coisa divina. e sexo não é só pra procriar, senão deus também não teria inventado o desejo nem o prazer sexual. seríamos todos frígidas máquinas artificiais. quem foi que inventou essa história de pecado original? alguém tem alguma prova disso aí? deus desceu dos céus e enviou alguma mensagem sobre o assunto? quem escreveu a bíblia, afinal? será que não tiveram jogos de interesses aí? quem disse que ser santo é não fazer sexo? por que essa palavra é proibida? é feio fazer amor? como diria john lennon, “vivemos num mundo onde temos que nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia”.

.a religião castra a gente. tira o livre-arbítrio, julga e vai contra tudo que eles dizem ser parte de deus. não é paradoxal? a religião (desculpem-me os religiosos) talvez seja uma das maiores culpadas por anos a fio de tantos indíviduos enchendo os consultórios psiquiátricos. a religião deve ter convênio com os seguidores de freud. só pode.  e vai dizer isso por aí. vão te chamar de louco. se já me chamam, não tenho nada a perder, não é verdade?

.ai meus dentes!

Publicado: 19 de abril de 2010 em Uncategorized

.ontem à noite tive um sonho muito louco. na verdade, sonhos com dentes, para mim, são recorrentes. isso mesmo. sei que parece estranho (e é), mas acontece comigo desde a infância.

.nunca sonhei com dentes de uma forma positiva. ou eles estavam caindo, ou “frouxos”, ou se quebrando. este último foi o caso da noite anterior. na maioria das vezes, sempre acordo colocando a mão na boca e verificando se eles estão todos ali, intactos. ainda bem que sempre estão.

.vocês devem estar pensando: “e daí? o que eu tenho com isso?”. vocês não têm nada. o problema sou eu mesmo. a curiosidade foi tão grande que resolvi pesquisar sobre o tema. recorri ao famoso e velho pai dos burros do século XXI, o “tio Google”. para meu azar, descobri que o significado não é nada bom. mau presságio para a família. morte de parentes e coisas do tipo. encontrei até um que dizia: acidente e desastre na vida amorosa. MAIS??? (rs). eu mereço! ainda mais essa.

.é o que eu digo: mais desastre na minha vida amorosa, só se eu virar lésbica, porque casar, não vou nem sei se devo ou quero. lésbica talvez nem fosse um problema. talvez seria até uma solução. pena…uma pena. sei não, mas sonhar com dentes…é uma droga!

.deve ter chulé.

Publicado: 18 de abril de 2010 em Uncategorized

É sábado à noite e chove uma chuva gostosa. Uma pena para os que não sabem curtir os prazeres que a água vinda dos céus pode proporcionar. Uma pena para os que pensam que divertimento é apenas beijar sem compromisso numa festa. Sair sábado à noite.

O friozinho me faz ficar debaixo das cobertas e sem vontade de me levantar para qualquer coisa que seja. Deixem, por favor, qualquer emergência para amanhã, pois agora me perco dentro de mim. O cheiro de terra molhada transporta-me para momentos da infância, quando tomava banho de chuva ao caminhar pelas estradas de barro de Guaramiranga e depois tomava banho de cachoeira para lavar a lama impregnada no corpo depois da queda na terra escorregadia.

A chuva traz também os sons dos sapos a coaxar, atraídos pela umidade do tempo. Começo então a lembrar-me do encantador de rãs que por tanto tempo povoou meus pensamentos e fantasias. Lembrei-me daquele olhar atento da cor do mar. Olhar envolto por longos cílios dourados que mais parecem molduras a enfeitar uma bela paisagem. Nas extremidades do rosto, algumas ruguinhas de alegria faziam-no sorrir com os olhos.

E os cabelos de raios também dourados de sol. Quem dera eu poder tocá-los, meu Deus! Afagar cada fio e tê-los entre meus dedos. O nariz parece moldado por mãos divinas. E a boca! Ah! A boca vermelha que nem fruta proibida boa de morder. Guarda um sorriso de dentes muito brancos. Um sorriso ingênuo, quase que infantil. O Sotaque estrangeiro denuncia o forasteiro. Ainda por cima tem esse jeito de falar. Fico toda boba. Falo tudo errado. Esqueço palavras, fico tímida. Deixo de ser eu.

E o modo como ele ri e acha tudo muito bonito e interessante. Parece menino descobrindo o mundo. Admirado com cada nova aventura. Uma pena é não poder sentir seu cheiro, pois jamais cheguei tão perto para que pudesse conseguir tal feito. Melhor assim. Seria muito difícil para meu pobre coração sofrido de amor platônico  de contos de fadas.

Por que eu olho para esse moço e meu coração bate forte, quase saindo boca afora. E eu nem posso falar nada. Seria chamada de louca. Fui tomada por um encantamento arrebatador que levou tudo que tenho de mais precioso: meus pensamentos. Será que tem remédio para esse feitiço? É mais uma loucura fugaz de minha mente perturbada? Será que isso dá e passa como tantas vezes? Sentir essas coisas pode até nos fazer parecer vivos. Dar razão a nossa existência. No entanto é dor que incomoda. Loucura que parece não terminar. Uma angústia que consome.

Se eu pudesse pelo menos falar. Mais uma vez me perco no proibido, no impossível. Ah, que azar! Pena ainda ser tão inteligente e sensível. Se pelo menos eu visse um defeito… Chulé! Diz-me, por favor, que você tem chulé!



.freud explica?

Publicado: 16 de abril de 2010 em Uncategorized

.no fundo, acho que freud era tarado. para ele, tudo o que somos, fazemos e sentimos, é fruto de nossa (in)experiência sexual. tudo é sexo. sexo, sexo e mais sexo. sexualidade mal resolvida então…é caso de enternamento.

.diz o famoso médico que meninas amam os pais e meninos apaixonam-se pelas mães. dia desses, pensando nisso, imaginei eu apaixonada pelo meu pai. Eca! meu pai nunca foi o esteriótipo do cara pelo qual eu me apaixonaria. não mesmo.

.no entanto, cheguei a pensar que a hipótese do pai da psicanálise pode realmente ter algum fundamento, mesmo que fruto de nosso inconsciente. vou explicar. a verdade é que, por mais que eu negue e lute contra a maré, na maioria das vezes, acabei ficando com o moreno baixinho e cabeludo. sim, meu pai já teve madeixas longas em sua época hippie. deve ser daí que vem esse meu quê de maria shampoo.

.se eu contar ainda que meu pai andava de moto? tá. por mais que eu não queira. o tal complexo de electra domina e, infelizmente sigo a sina de minha mãe e me apaixono por pessoas cada vez mais parecidas com papai.

.tantas vezes eu disse que ia virar freira. pena eu não ter vocação. quando menos espero, já me apixonei de novo. tarde de mais. lasquei-me de vez. do mesmo jeito, quando menos espero, já foi. o encanto quebrou. por issom sempre digo que não posso ser porto seguro de ninguém. se for comigo, tem que ir sabendo. não posso garantir amor eterno. e olha que eu não faço isso de propósito. não sou nem nunca fui do tipo mulher fatal. as vezes, isso não é nada bom, principalmente quando a gente chega a conclusão de que vai ficar só. eu até tento, mas deve ter um por quê. e ai, freud? explica?

claro! é sexo! sexo!

.felicidade é FLICTS.

Publicado: 14 de abril de 2010 em Uncategorized

.pensei em escrever um poema, mais precisamente um soneto, no entanto me rendi à falta de talento. quem sabe uma música? não. minha arte, se é que a tenho, nunca foi para as rimas, que pra mim saem forçadas. exigem mestria divina. drummond então…é um deus.

.nunca fui dada a romances. talvez seja pela falta de paciência, por enjoar dos personagens e não saber mais o que fazer com eles. talvez. então eu me perco nos fios das meadas do enredo e puf! já era minha bela história na terceira página. assim, dedico-me a historietas, a pequenas reflexões de mim e do mundo. do que eu vivi, pensei e desejei ter vivido.

.assim, quando escrevo, sou feliz, mesmo escrevendo triste. são esses momentitos de prazer que fazem minha felicidade. essas coisas pequenas com as quais só criança fica feliz. ínfimas linhas são brinquedos. por que felicidade é um negócio mesmo efêmero. é sonho fugaz que escorre pelas mãos. é estado. dá e passa. mas volta. sempre volta. e a vida, é a eterna espera por esse volver.

.sento num banco de praça, sozinha. com a cabeça no nada e o olhar no infinito, sinto-me feliz. em paz, mesmo que por um instante. é só fechar os olhos e sentir a brisa roçando nas minhas bochechas de eterna menina constantemente (des)encantada com o mundo. menina com asas que ninguém vê. 

.basta um elogio sincero. um carinho na nuca. um beijo de amigo na testa. um abraço de mãe. basta um cheiro faminto de comida, um doce som de bossa nem tão nova assim. basta um livro intrigante, uma imagem paralisante para eu me alegrar. e se daqui a pouco eu fico triste, nada como um bom sono. mamãe me deixa dormir com os anjos, com meus sonhos infantis. amanhã, criança de novo, desperto e vou fazer nova danação de menina maluquinha, povoando meu real mundo imaginário. por que a felicidade é FLICTS, né não Ziraldo?

.ps.: mais um sonho realizado. da minha memória, jamais desaparecerá o dia em que conheci e conversei, durante uma tarde de sol, regada a uma boa dose de cerva gelada, com um certo vovô maluquinho. eterno menino. junção de Zizi com Geraldo.

.conversas de amor no espelho.

Publicado: 11 de abril de 2010 em Uncategorized

.como bem disse Lacan sobre o amor: “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. hoje você não parece muito otimista para as questões de amar. penso que realemente tem razão. você nunca teve grandes e reais motivos para comemorar a festa do célebre sentimento que é o amor.

.podem dizer que você é bonita, que possui  olhos encantadores, da cor do mar. e daí? primeiro amor mal sucedido, não correspondido. tantos outros foram fontes de desilusão. por hoje, você desiste. nem todo mundo foi feito para o amor. amanhã, no entato, você sente inveja da felicidade dos casais ao redor, sente falta de ser plenamente feliz junto, e volta a sonhar. no fundo, ninguém desiste do amor.

.você tenta mais uma vez. agora, realmente parece estar apaixonado. mas o outro parece não estar tanto. nova decepção. existem outros que te amam, mas não. você não os quer. a verdade é que você teme o amor, foge dele como o diabo foge da cruz. e que cruz é o amor!

.é cruz por que é incerto. hoje você ama. amanhã, pode não amar mais. hoje, alguém te ama, mas e amanhã? o amor não tem garantias. você não poderá ir à loja pedir devolução ou ao tribunal de pequenas causas se queixar do produto que adquiriu. não. amor não é mercadoria. e você nunca terá certeza se realmente é amor.

.será que você já sentiu amor? você sabe o que é o amor? existe realmente o amor ou ele é apenas alguma coisa que inventaram para ocupar a nossa vã existência? Nietzsche dizia que não se ama o ser amado e sim o que se sente quanto se julga amar. vai ver ele está certo e você não ama ninguém. que mentira é o amor!

.quem será que colocou na sua cabeça que você precisa amar, que você depende sempre de um alguém? que falta é essa que você sente? que confusão é essa quando alguém entra em sua vida? que pânico é esse? por que esse pudor doentio que te domina? por que esse medo de meter os pés pelas mãos, de fazer loucuras, enquanto o amor nunca foi dotado de razão? por que essa letargia, esse medo de falar, de se expôr, de sofrer. amor é sofrimento também, sabia? por que esse medo de rir, de ser expontâneo e alegre, hein? alô! cadê VOCÊ? não sabe o que fazer? não sabe como agir? ninguém te ensinou a amar não? não. pior que não. a gente aprende, mas nunca se ensina o amor.

.palavras mágicas.

Publicado: 11 de abril de 2010 em Uncategorized

.um pedaço de papel e uma caneta com tinta podem ser objetos mágicos. traduzem pensamentos impalpéveis de nossa mente. eles se tornam, então, concretos. deixam se ser simples devaneios e passam a tecer um fio de Ariadne que nos conduz dentro de um labirinto que é uma história.

.a tecnologia torna o escrever infinitamente prático. no entanto, a beleza da palavra escrita, o cheiro da tinta, do papel, a marca deixada pela força da mão hábil e ansiosa por revelar segredos, não podem comparar-se à frieza virtual do computador.

.uma a uma, elas vão moldando o texto, dando sequência a uma lógica (às vezes nem tão lógica) linha de pensamento. coesão, por momentos não tão coerente.  metáforas paradoxais, prosa em poesia, hipérbole de amor e ódio. será que a palavra é bela por que a língua é bela, ou é o contrário?

.saudade. linda e cruel. palavra única. sinônimo de falta. mas os sinônimos nunca traduzem de fato uma específica palavra. elas mesmas são cheias de significados em si. símbolos de uma semiótica escondida nas entrelinhas da alma do escritor.

.palavras são desenhos sonoros e agem como homens que precisam conviver em harmonia para ganhar algum sentido. palavras fazem prosa. palavras fazem poesia. palavras fazem canções. palavras juntam corações, separam almas, moldam sentimentos. palavras são pura magia divina.

.quentura.

Publicado: 10 de abril de 2010 em Uncategorized

A madrugada foi meu primeiro berço. Talvez seja por tal motivo que nunca me acostumei com o sol da escaldante Fortaleza. Nasci à meia-noite, quando só há luz artificial na cidade, não por acaso, chamada de Terra da Luz. Ah, se fosse só apelido! A capital cearense tem andado cada vez mais quente, e essa não é somente uma constatação de meu duvidoso senso comum. Todos comentam. Até a dona Angélica, a senhorinha da casa em frente, reclama dos raios que queimam a pele sem piedade. E olha que ela já passou da idade de sentir os calores da menopausa!

Mesmo que involuntariamente, é constante, para mim, ter de sair ao sol do meio-dia. Dá sempre aquela preguiça vespertina, principalmente no pós-refeição, quando estamos loucos pelo sossego de uma sesta bem dormida. Com o alto senso de responsabilidade herdado de minha estimada mãe, deixo o querido lar sob o impiedoso castigo do astro-rei para dirigir-me à labuta diária.

Transpirando por todos os poros de meu corpo em chamas, chego à parada de ônibus. O mundo parece conspirar contra mim, pois o coletivo acabara de passar e tenho de esperar quase meia hora por outro. Penso eu que não conseguirei chegar viva ao trabalho. Talvez só as roupas cheguem. Rio sozinha.

Finalmente o “meu” ônibus chega. Impaciente, subo mais que depressa. O pior de tudo é a lotação. Mal passo da porta, que quase deixa metade do meu corpo do lado de fora. Amaldiçôo o motorista e espero os demais passageiros passarem pela roleta. Chega a minha vez. Não tem troco para cédula de dez reais. Mais espera. Finalmente o cobrador me chama e me dá a quantia que faltava.

Após o obstáculo da roleta, começa então a odisséia para conseguir um espaço minimamente suportável onde poderia resistir ao resto do percurso. Dizem os físicos que dois corpos não habitam o mesmo espaço ao mesmo tempo, porém, acho que a lei não se aplica a coletivos lotados. Ali dentro, físico, só mesmo o contato entre os corpos. Roçando pra lá e pra cá. Desculpas aqui e ali. Uma mulher gorda carregando uma bolsa gigantesca e estampada espreme todos contra bancos e janelas. O rapaz tira uma casquinha da bonitona da frente. Ao lado da porta do meio, encontro um pequeno refúgio no qual tento recuperar o ar que me falta.

“Para aê, seu motorista!” – grita uma senhora ainda na metade do ônibus. Só depois do susto, dou-me conta de que devo saltar na parada seguinte, que já está bem próxima. Apresso-me para descer a tempo, mas os passageiros que estão na frente parecem fazer de propósito e não escutam minhas súplicas desesperadas a fim de tentar sair. Pronto. Passo da parada. O motorista reclama e, sem paciência ou a mínima educação, resmunga: “Tava dormindo por acaso?”

 

Volto a praguejar contra o homem e desço do ônibus. Novamente me encontro andando sob o sol impiedoso de Fortaleza. A quentura me sufoca, porém, sigo a rotina diária de quem mora em território tropical.