Arquivo de 23 de abril de 2010

.para um moço, com amor.

Publicado: 23 de abril de 2010 em Uncategorized

.disseram para ela que, na dúvida, é melhor despejar os sentimentos numa bandeja e oferecer a quem se ama. daí…o outro faz o que bem entender. assim, ela escreveu uma pequena carta.

Para um moço, com amor

Tantas coisas quis dizer e calei. Faltaram-me palavras. Nem sei bem o que passava pela minha cabeça confusa, mas havia algo que me inquietava. Minha boca, travada. Um nó-cego no peito subia até a garganta fechada. Beijei-te e uma lágrima medrosa lançou-se sobre o meu rosto escondido. Você nem viu. Estava escuro e nossos olhos estavam fechados. Isso me deu um alívio, pois não queria parecer boba.

Tão difícil é pra mim saber o que sinto. Muito mais falar de algo desconhecido que dá medo e faz tremer até a alma. Se minha boca não proferiu nenhuma palavra, olhe então para os meus olhos. Lá estarão todos os mistérios escondidos dentro de mim. Meus sentimentos e meus medos, dos quais suprimi do meu vocabulário vestindo-me de uma armadura de mármore.

Se te pareço fria, segura então as minhas mãos suadas. O toque delas dirá tudo o que não diriam mil palavras. Meus lábios não precisam se mexer. Um toque, um olhar, um sorriso, um beijo estalado no ouvido são qualquer coisa boa que não precisam de tradução falada. Essas palavras escritas são tão fáceis de serem manipuladas. Eu poderia escrever o que quisesse. Mentir, fingir, ser dissimulada.

Mas os meus olhos me trairiam. Só eles podem te mostrar quem sou, o que sinto e o que temo dizer. O que mais me dói: esse meu medo de me apegar a você. De sofrer de me perder num caminho sem volta. Se ainda não entendeu, então é por que jamais entenderá por que não preciso de uma frase pra dizer o que meu coração quer falar. A linguagem dos sentimentos não foi o homem que inventou. Não se pode estudá-la nem aprendê-la. Apenas senti-la. E eu, que já cansei de tentar, deixei meu coração falando sozinho. Acalma-se só de te ouvir cantar no pé do meu ouvido baixinho numa noite de sereno em plena lua cheia.

.no fim, a bandeja foi jogada no lixo. sem mais desperdício ou lamentações, juntou os cacos de si, e, com uma rabissaca, disse adeus.

.saudosa assassina.

Publicado: 23 de abril de 2010 em Uncategorized

Por ser uma pessoa patologicamente indecisa, simplesmente ela não sabia qual seria a escolha mais adequada a ser feita. Inicialmente a contestação foi negativa, apesar de uma luta metafísica com seu teimoso inconsciente. Não obteve, todavia, o sucesso desejado, sucumbindo às vontades de um coração voluntarioso.

Foi então que ela decidiu arriscar a segunda opção, entregando-se a um inevitável e excitante romance ilícito. Ele exercia sobre ela um fascínio quase que criminal. A moça sentia, pois, raiva de sua impotência diante do evidente caso de delito. Mais precisamente do art. 217 da Constituição brasileira: sedução. Um crime contra os costumes. Fatalmente irrevogável.

Porém, rendendo-se ao que outrora julgava jamais aceitar, ela assassina o próprio juízo. De fato, já louca de amores, não dava mais importância às conveniências sociais. Correndo os riscos de sua decisão impulsiva, ela gozou dos prazeres do amor. No entanto, dessa vez foi ela a ser a vítima de um homicídio. Crime qualificado e conspiratório. Não foi ela a sujar as mãos. A saudade, ao invés de morta, matou.

.sofás brancos na cidade.

Publicado: 23 de abril de 2010 em Uncategorized

.hoje o dia amanheceu chuvoso. após descarregar toda a minha raiva e adrenalina matinal pós-desjejum em um surto de pura violência psicopática, eis que  estava eu com meus pensamentos de vingança dentro do ônibus, quando, de repente, minha sorte dá mais um tropeço de arrancar o chaboque do dedão do pé.

.bem que eu tinha achado que era sorte demais a minha encontrar um Circular vago no horário das 8hs. eu estava feliz por poder finalmente ir ao jornal sentada. doce ilusão. no meio de meus pensamentos profanos de matar um, o ônibus enguiça e dá o prego. o motorista: “tá sem embreagem. vocês vão ter que descer e pegar o próximo”. ah, tá brincando comigo!

.no entanto, como eu já tinha feito a sessão do descarrego do dia, eu já nem tinha “forças ocultas” suficientes para fazer “aquele rebuliço”. desci elegantemente, linda e loira, para esperar o próximo ônibus. para minha surpresa, um fato surreal em plena rua de Fortaleza. um sofá no ponto do ônibus. até aí tudo bem. é até bem confortável esperar o coletivo sentado num. para minha sorte o Circular veio vaguinho, vaguinho e pude ir sentada decentemente num confortável banco.

.no meio do caminho, mais um fato maluco. outro sofá branco no meio da calçada e, dessa vez, habitado por um estranho que lia um livro como se estivesse na sala da própria casa, nem ligando para quem passasse. que maluquice!. pensei.

.quando cheguei à parada do jornal, pasmem! mais um sofá branco na praça. e com um indivíduo lendo. será que eu tô ficando maluca, mesmo? será que só eu estava vendo aquela marmota? sei não. o misto de curiosodade e inveja (sim, eu também queria parar ali e ficar lendo sem me preocupar com o resto do mundo) invadiu minha mente e tomou o espaço dos pensamentos vingativos que me perseguiam. no entando, logo passou e eu não desisti. vingança é um prato que se come frio. degustando com elegante maldade. mas e esses sofás? que cargas d’água estavam fazendo ali? traz a camisa de força e a sertra, pelamordedeus!

.ps.: ao perguntar para outros indivíduos se tinham visto algum dos sofás…nenhuma resposta foi positiva. estou ficando com medo. ou estou tendo alucinações devido à drogas (que eu nem uso) ou estou realmente sofrendo de uma esquizofrenia aguda. medo.alguém diga, por favor, que também viu.