Arquivo de março, 2010

.não há mais nada (borboletas).

Publicado: 28 de março de 2010 em Uncategorized

.agora o que resta são apenas asas quebradas no chão do quarto. asas de bordoletas jogadas ao chão. não há mais prosa, não há mais poesia, não há mais rima, nem música, nem nada. só os cacos de borboletas no chão do quarto.

.não há mais corações partidos por que também não há mais corações. somente os restos das borboletas. não há mais solidão, por que não há mais ninguém. não há mais medo por que não há mais almas. não há mais nada. só os cadáveres das borboletas.

.não há mais dor. não há mais som, não há mais luz, nem escuridão. não há mais cor, não há mais cheiro, não há mais raiva, não há mais amor, não há mais nada. nada. nada. não há ninguém. e para onde foram as borboletas?

.e não há mais sentido. palavras sem sentido. por quê? porque não há nada. que sentido haveria no nada? perdeu-se tudo e o que resta agora é o nada. o nada  e os cacos das borboletas no chão do quarto.

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.o resfresco de morango.

Publicado: 27 de março de 2010 em Uncategorized

Hoje estava eu, a fazer o desjejum com minha mãezinha querida. Ela sentada na cadeira de balanço, assim como ela dizia fazer minha falecida avó. Eu, sentada à mesa, comendo meu rotineiro pão com café. Não sei se por influência da cadeira de alta estima familiar, ou se pelo fato de eu ter feito broas de milho, iguaria só feita pela matriarca dona Anita, mamãe  começou a lembrar histórias de sua infância.

Confesso já ter ouvido os mesmos causos umas tantas vezes, mas é engraçado, pois sempre parece ser a primeira. Tanto é que, a emoção, nunca é diminuída. Começo então a construir imagens em minha mente, a reproduzir diálogos e cenários descritos com um misto de saudade, alegria e dor.

As broas de milho, no tempo de mamãe, não eram tão requintadas. O leite não era fácil em Pacoti, interior do Ceará. Era somente fubá de milho, moído artesanalmente no fundo do quintal, água e açúcar, conseguido com esforço no engenho da cidade. Quando muito, vovó acrescentava um único ovo, doado por vizinhos “para dar a liga”.

O pão nosso de cada dia, esse era mais raro ainda. Quando presente na mesa dos Sampaio, era dividido entre os seis filhos. Nem mesmo dona Anita ou seu Mundinho partilhavam da iguaria, para, na autêntica abnegação de pais, deixar que os filhos se alimentassem melhor. Tratava-se de um pão bengala partido em seis pedaços, não mais largos que quatro dedos bem juntinhos uns dos outros. No prato fundo de vidro, o jantar era acompanhado de uma espessa sopa de feijão.

Pedro, o filho homem mais novo, partia o pão em pedaçinhos ainda menores, guardava, e só depois da janta levava, dentro de um pequeno cone de papel, as migalhas do pão e sentava na calçada. Sozinho, ele degustava aos poucos o alimento, como que prolongando o prazer de comer e protelando seu inevitável fim.

Dia de sábado era a alegria da criançada. Vovô Mundinho vinha com alguns filezinhos de fígado de boi, ainda em sangue, amarrados em uma corda. Mamãe conta, com água na boca, que era o dia mais feliz da semana. Dona Anita temperava a carne, fazia um arroz branquinho, molhadinho, pra acompanhar. Os seis filhos raspavam o prato.

E tinha a história das frutas, das vezes em que passaram mal de tanto comer tangerina no pé. Das vezes em que foram denunciados pelo vizinho, pois haviam roubado as goiabas do quintal. Do dia em que encontraram uns ovos no meio do caminho para o engenho, fazendo o almoço e o jantar de toda a família.

Mamãe conta que, até hoje, a tia Rita é traumatizada, a coitada. Não há quem a faça comer banana. Porque, segundo ela, era banana, dia e noite. Banana cozida, banana assada, banana frita, banana no feijão, banana com farofa e rapadura. Banana feito doce. Era banana até enjoar.

Cuscuz era o mais comum durante a noite. Para a tristeza da caçula, minha mãe. Ela chorava, e não queria, de jeito nenhum, o pão de milho da vovó. Dona Anita, pacientemente, amassava com um garfo o cuscuz e punha o café por cima, para melhorar o gosto. Mamãe comia, pois a fome era maior que qualquer frescura de criança.

E minha avó nunca sentava à mesa. Quando todos acabavam, ela, sempre deixando o melhor para os filhos e para o marido, pegava os restos do arroz e do feijão das panelas do almoço e amassava.  Misturando com um pouco de farinha, ela fazia pequenos bolinhos, que chamava de capitães. E comia ali, sozinha, escondida no quintal.

Mas, apesar da pobreza, mamãe conta que nunca passaram fome e que nunca deixaram de estudar. Vovô não permitia jamais que seus filhos fossem mal na escola. Seu Raimundo era um intelectual e sabia que a educação era a melhor herança que poderia deixar para seus meninos.

E o vovô tinha uma irmã mais bem dotada de dinheiro. Tinha casado com um homem rico e a família passava muito bem, obrigado. Toda vez que os filhos do Mundinho iam para a casa da tia Rosalda era uma felicidade só. Ela servia um Kissuqui de morango, o famoso refresco que brilhava nas festinhas de aniversário da época, fins da década de 50.

Mamãe lembra, com os olhos brilhando de emoção, do dia em que, ao voltar do colégio, após a entrega dos boletins, a vovó havia preparado uma merenda simples, que, para eles, era um banquete dos deuses. Na mesa, as famosas broas de milho e, para beber, Kissuque. Isso mesmo. Kissuque de morango, igual ao da casa rica da tia Rosalda.

Mas, o mais poético na história, era que o Kissuque não passava de água com açúcar. Para dar o colorido do morango, vovó utilizara papel crepom vermelho. “E hoje, qualquer miserável tem dinheiro pra comprar Kissuque”, dizia mamãe, balançando-se na cadeira.

Imaginei eu: há prova maior do amor de uma mãe? Não. Não há. Um simples refresco de morango meu deus! E eu que reclamo se o café não está quente, se o pão não é do jeito que eu gosto, se é frango e eu queria carne. Que egoísta que eu sou! E, pela milésima vez,  meus olhos se encheram d’água. Prontamente os escondi, para que ninguém notasse que o meu coração não é de pedra. É mole e doce como um pudim de leite.

.que tal?

Publicado: 26 de março de 2010 em Uncategorized

.hoje confesso que não brota em mim nenhum tantinho assim de inspiração. no entanto, a necessidade de escrever se torna tão intensa que perco a vergonha na cara e escrevo assim, sem mais nem menos. perdoem-me então por qualquer bobagem.

.se eu disesse que não estou bem, mentiria. se dissesse que estou bem, também mentiria. o que é então? não sei. sempre me falta algo. uma coisa que eu procuro, procuro, e nunca acho. como uma criança mimada que enjoa do brinquedo, por que, no fundo, nunca teve o brinquedo que desejou.

.quisera eu não ter vontade nenhuma. tiraria do peito essa angústia do querer sem saber. que loucura é essa da gente…que tem fome de uma coisa que não tem gosto, nem cheiro, nem nada? angústia. é isso mesmo. essa dá e nunca passa. só aumente. e eu, já impaciente de nascença, será que um dia saberei o gosto da calmaria e da paz?

.dizem que segurança não tem graça. vai ver não tem. antes uma vida numa corda bamba. mas essa vida, um dia cansa, e é preciso se aquietar. o que te traz paz? se eu soubesse…já tinha ido, há muito tempo procurar. a liberdade tem um preço, não é verdade? ser livre pode ser igual a ser sozinho. mas, sinceramente…antes só que mal acompanhado! então…que acham de experimentar umas coisas nem tão novas…

.que tal subir no telhado e ver a vida do alto? que tal dançar bolero com seu cachorro, descalço? que tal um banho de chuva, com direito a lama e tudo? que tal um bolo de laranja no forno molhadinho com calda de canela? que tal um café e uma boa conversa pra acompanhar? que tal um amigo sincero e diverdito? que tal um crítico também? que tal um amor crônico, doído e fatal? que tal um romance mamão com açúcar com horas ao celular? que tal fechar os olhos e curtir o momento? que tal?

.pacto de serenidade.

Publicado: 26 de março de 2010 em Uncategorized

.quem me vê assim com esse meu olhar perdido, um ar blasé e sem compromisso, até pensa que eu sou uma pessoa calma. calma é a última coisa que sou. e mande eu ter calma pra você ver!

. mal sabem eles o turbilhão que me habita. serenidade é coisa escassa. ansiedade e impaciência me sobram. e olha que eu realmente tenho cosciência de que isso não é recomendado por médicos. o problema é que, quando penso em contar até 10, é tarde. já foi.

.”just a little patience, yeah, yeah”…é o que diria meu querido axl rose, mas eu duvido que ele, sendo um aquariano como eu, tenha um dedinho assim de paciência. sei lá. eu tenho fome de viver. não quero esperar. quero logo, logo, logo. isso é ruim. porque o tempo é malvado e, às vezes, exige espera. e esperar…esperar. não tem nada que me deixe mais nervosa.

.hoje andei pensando e decidi fazer um pacto com a minha própria nervosa e descontrolada pessoa. um pacto de serenidade. (um dia eu tatuo isso em mim). quando o pequeno diabinho encher o saco aqui do lado, contar até que o “negócio” passe. repirar, repirar, respirar. ser paciente, paciente. pensar em coisas felizes e tranquilas. aprender a esperar (na hora certa, lógico). não sei não. isso tudo é muito difícil, mas não custa nada tentar.

.noite de trovoada.

Publicado: 25 de março de 2010 em Uncategorized

.não sei por que, hoje acordei um pouco pessimista. e olha que isso não é lá muito do meu feitio. geralmente eu penso que vai dar tudo certo. ou tento pensar. no entanto, hoje sofri de uma melancolia tremenda, da qual, nem os mais forçados pensamentos de otimismo conseguiriam me distanciar.

.penso eu, que  isso tenha a ver com os trovões. ontem à noite uma tempestada despencou sobre Fortaleza. durante toda a madrugada, os clarões invadiam meu quarto e, em seguida, o barulho ensurdecedor estremecia as estruturas dos aposentos. creio eu que estremeceram também as estruturas do meu coração. (nossa! que coisa melosa!)

.não que eu tenha medo de trovões. hoje não. quando eu era pequena, os estrondos me amedrontavam pela possibilidade de cair um raio sobre a minha cabeça e eu ter uma morte fulminante. hoje não. hoje não temo mais a morte, logo, não temo os trovões. não é a lógica? o que os trovões têm, então? os trovões me trouxeram a lembrança. mostraram-me a criança indefesa, sozinha no escuro. os trovões me mostraram que eu ainda posso ser frágil como a criança.

.porém, não se preocupem. eu não me preocupo. meu pessimismo, é coisa que dá e passa. afinal, meu desvio de personalidade borderline não deixaria que eu passasse muito tempo com o mesmo humor. é fato. já me acostumei com a complexidade do meu eu feminino.

.tanta coisa já mudou. fiquei impressionada, dia desses, quando me surpreendi rindo alto. não como antes, mas já de um modo diferente. a voz já não mais engasgava. é bom sorrir também com os olhos e com a alma.

.meu olhar, constantemente perdido, pode suscitar especulações, no entanto, nem eu mesma sei explicar o por que do meu habitual avoamento. os pensamentos se perdem, voltam, se misturam, sem o mínino controle. eles nunca me obedeceram. eu nunca tive lá muito pulso forte (nem mesmo quis) com o que se passa na minha cabeça. eles me divertem. tá vendo? estou rindo agora em pensamento. a manhã enrolarada chega, e os trovões foram embora.

.fotos da vida.

Publicado: 24 de março de 2010 em Uncategorized

.a vida, a gente pode encarar de vários modos, principalmente em um dia de chuva. eu explico: num dia de chuva, uma míope como eu pode ver o mundo através das lentes de uma câmera fotográfica. sim. eu estava tirando fotos da vida.

.parecia que meus olhos estavam enxergando pelas lentes de uma câmera daquelas que produzem efeitos, tranformando as fotos em peças invejavelmente premiadas. contudo, receio desapontar-lhes: eu não estava com uma máquina, nem, muito menos, tenho talentos para a arte da fotografia. como produzi esse efeito? é simples. fiquei com meus óculos enxarcados, assim como a minha roupa, caminhando sem rumo por entre as árvores de um parque. dizem que a água nos deixa mais próximos de deus. a água da chuva, então, energiza.

.com as lentes cheia de gotículas de água pluvial, foi-me dado o privilégio, quase que poético, de ver o mundo de uma forma artísticamente redesenhada. poderiam, os não utilizadores de  “lunetas mágicas”,  enxergar dessa forma sem a ajuda dos efeitos da tecnologia? meu fenômeno ocular foi natural.  às vezes, há vantagens em ser míope.

.como bem lembra a música dos Paralamas, para um míope, quando o mundo está feio, e só sacar os óculos, ou as lentes de contato, como queiram. assim eu faço. num mundo desfocado, a vida pode ser como o “cegueta” bem desejar. retiramos aquele objeto enfeitiçado que repousa sobre nossos narizes, e a vida, mais uma vez, ganha um novo efeito. a vida de um míope, nunca é imageticamente padronizada. ainda mais, quando a miopia vem acompanhada de astigmatismo. aí, as luzes, elas ganham um papel diferente. imaginem vocês se eu fosse daltônica. o mundo seria triste. jamais conheceria eu, a felicidade de sentir o calor de um belo tom de vermelho.

.surto pseudo-intelectual.

Publicado: 21 de março de 2010 em Uncategorized

.eu vim aqui por um propósito, no entanto, como é de praxe, esqueci o que ia escrever. realmente acho que os vinte e um anos estão pesando. só espero que o futuro não seja o alzheimer. 

.como eu ia dizendo…ah…lembrei! era sobre o vento. ontem estava eu…na maior falta do que fazer, e fui, finalmente, encarar as mais de quatro horas da saga hollywoodiana do épico E o Vento levou! confesso não ter a mínima paciência para filmes longos. isso me entedia. mas, tenho que admitir que esse filme me deixou de boca aberta e querendo ser Scarlett O’Hara. e…obviamente…sonhando com o Clarck Gable.

.segredinho sujo: tive uma crise de mulherzinha e chorei. como se não fosse o bastante, fui pega no flagra por minha estimada mãe, que não satisfeita, ainda teve a audácia de rir de mim. depois não sabe porque as crianças se tornam adultos deprimidos e dependentes da “sertra”. os que lucram com a história são os psiquiatras que sentam na cadeira e deboxam mentalmente de nossos pensamentos e segredos cabeludos.

.voltando à película…acho que estou ficando um pouco pseudo-intelectual. está me dando vontade de vez filmes clássicos e escutar mpb. vê se pode? pode. pode sim. pior que pode.

.eu que não tenho vergonha na cara…ainda arranjo mais um estranho por quem me apaixonar à primeira vista. isso com certeza deve ser patológico. não é à toa que os franceses chamam isso de coup de foudre. livrai-me, senhor! pianistas não devem ser “bons biscas”, se é que isso existe. se não existe eu invento agora, ora pois.

.isso deve ser sono. isso. sono. melhor eu ir fazer uma boa sesta. talvez me livre de pensamentos infames. ou não. não consigo (ainda) controlar meu subconsciente. vamos lá freud. ação! aiai. zzzz. culpa da sertra!

.manipulador das palavras.

Publicado: 19 de março de 2010 em Uncategorized

.posso dizer que, depois de hoje, não sou mais a mesma. apesar de nunca sermos os mesmos dia após dia, hoje, em especial, ocorreu-me um estalo de vida. momento inesquecível. daqueles tão memoráveis que são dignos de ser mencionados na própria biografia.

.hoje tive um encontro diria…sobrenatural. sim. há pouco estava com Airton Monte, o mestre. grande contista e cronista dessa cidade. essa mera mortal metida à escritora que vos fala sentou à mesma mesa e teve o prazer de degustar do mesmo carneiro cozido com pirão que o digníssimo, o ilústríssimo senhor das letras cearenses. emoção demais para um dia só.

.o motivo, não vem ao caso, mas sei que, nessas 4 horas nas quais tive o grande prazer de conviver com esse “cidadão”, muitas emoções entraram e saíram descontroladamente do meu confuso cérebro jornalístico. eu entrevistei Airton Monte.

.tietagens à parte, juro que passei a admirar até os defeitos do não tão jovem mancebo. um homem que sabe extrair da vida o seu melhor. esse sim é Airton Monte. um conhecedor das letras, um manipulador das palavras. quem sabe um dia eu não arranjo coragem e mostro meus rabiscos para o grande mago.

.nem acreditei quando o vi lá, de costas. no Ideal Club. coisa de gente grã-fina. conversamos como se amigos fôssemos. eu e Airton. dá pra acreditar? e eu ri de suas peripércias. admirei os seus sábios pensamentos. invejei sua grande e pesada bagagem de conhecimentos. Airton, tu és mesmo feito de tinta e letras.

ps.: agradeço a presença dos ilustres amigos Evelyn e Deivide (com E no final) que embarcaram comigo nessa aventura louca e apaixonante.

.a senhorinha ruiva.

Publicado: 12 de março de 2010 em Uncategorized

.ela começou a rebolar descaradamente . no ambiente sério e silencioso, todos olharam-na num misto de espanto, curiosidade e reprovação. a bunda já não era mais a mesma. não tinha a firmeza da juventude. só a cintura fina que ela fazia questão de mostrar, apertanto a blusa e remexendo o quadril pra lá e pra cá. nem sinal de música, mas ela continuava dançando. Jacinta, 75 anos. dançarina na velhice por opção. sim. incrível como a senhorinha não parava de dançar nem mesmo sentada. ela não caminhava, saltitava, como se estivesse cantando alguma música em pensamento. sentada, ela balbuciava algo e continuava dando pinotes sem o múnimo pudor de senhora da terceira idade.

.os cabelos vermelhos (com a raiz por fazer) revelavam de cara a personalidade irreverente da dita cuja. como diria um amigo meu: mulher ruiva é o cão. imagina se for ruiva por vontade própria! poisé. lá estava ela, com suas madeixas encarnadas, suas roupas estampadas 3 números acima de seu manequim, em meio a cerca de meia dúzia de pessoas, a maioria com mais de 45 anos, com seus olhares moralistas e repressivos. e ela nem aí.

.uma velhinha aristocrática que estava sentada ao lado dela ousou dizer (despeitada com a juventude que a senhora rúbia exalava): sua roupa está muito comprida! Jacinta levantou-se e, sem paciência, disparou: o que você tem com a minha roupa? ela está ótima. tem gente  que não sabe mesmo se vestir! e sentou novamente na poltrona onde balbuciou mais algumas palavras silenciosas que salientavam a boca flácida e enrugada, naquele movimento facial de quem mastiga um alimento inexiste, que só velho sabe fazer.

.e eu fiquei ali sentada, olhando de longe, dentro da sala de espera da clínica médica, toda aquela velhice assim, exposta na minha frente. é. o tempo estava esfregando a verdade e o inefitável futuro na minha cara. confesso que dentro de mim brotou um pânico trêmulo e incontido. jamais ocorreu-me ser uma senhora idosa. agora, pensando no que me vem pela frende, praguejei contra o tempo, fazendo com ele um pacto vitalício de juventude.

.livra-me, senhor das horas, do castigo de andar manca e sem forças. de ter a pele flácida e sem ânimo. de sentir dores em todas as articulações. de reclamar de tudo e perder a minha auto-suficiência. de  sair somente em minha própria companhia, de não poder comer mais meus doces preferidos e, principalmente, de não lembrar das coisas e de não enxergar nem escutar direito.

.se a minha sina é envelhecer, que eu o faça direito. andando firme, com elegância. que minhas pálpebras não caiam. que eu seja uma velhinha intelectual, inteligente, culta, sofisticada e enxuta.  que eu dance e tenha a cintura da dona Jacinta. mas que nem meus dentes, peitos e glúteos sofram com a força da gravidade. que eu não permaneça prostrada numa cama, mas sim viajando e trabalhando, como uma pessoa útil.

.por fim, o mais importante: que eu aproveite a vida em sua plenitude. que eu seja mais sábia e não menos impulsiva. que eu tenha vivido um grande amor e tenha um ombro velho pra me apoiar  nos anos finais. que eu tenha quem chore no meu enterro. que tenha tido um filho e escrevido um livro, porque nunca fui boa com jardinagem, portanto, não faria o menor sentido em eu plantar uma árvore. se, no fim, eu me der conta de que nada vivi ou fiz que prestasse, e for somente mais uma dando despesa aos cofres públicos, que eu não passe dos 50, que meio século já tá bom demais. o resto é castigo!

.pensamentos antigos.

Publicado: 7 de março de 2010 em Uncategorized

por que tenho pensado tanto na minha infância? não sei. talvez eu não tenha crescido o suficiente, afinal. talvez hoje seja a garota que não fui. às vezes acho que estou retrocedendo. me pego imaginando coisas absurdas, saltitando ao invés de andando, fazendo brincadeira com tudo.

.dia desses eu lembrei das coisas que eu gostava de fazer. lembrei de como eu sempre evitava pisar nas linhas das calçadas. de como eu só caminhava pelas ruas passando as mãos nos muros. às vezes ralava um pouco, quando a textura era áspera. minha mãe sempre brigava. “o muro está quente menina! vai sujar as mãos!” mas eu nem ligava. aí eu pus de novo as mãos (agora crescidas) no muro. (rs).

.lembrei que eu adorava brincar de “joão atrepa” (rs), “joão acola”, gato-mia e cobra-cega. eu era boa. mas eu sempre trapaceava no gato-mia e me escondia no armário (rs). só ficava com raiva porque nunca conseguia pegar ninguém no cobra-cega.

.lembrei que eu tinha uma risada “estrambólica”. alta pra caramba. todo mundo já conhecia e alguns recriminavam. “menina, ri alto demais. coisa feia!” de onde já se viu rir ser feio? bando de despeitados! mas, engraçado. não me lembro desde quando exatamente, mas eu a perdi. perdi minha velha risada e nunca mais a encontrei. uns tempos sem rir e ela nunca mais voltou. por mais que eu ria com vontade e alegria, nunca mais ela vou obscena como antes.

. lembrei que eu adorava praia e sempre ficava vermelha como uma pimenta. hoje, nem sei mais quanto tempo não vou à praia. fiquei meio aversa ao sol. a gente cresce e os gostos mudam, não é verdade? mas o que não mudou foi o meu gosto por pensar, escrever. por café e…ahhhh, por doces!!! um dia isso ainda vai me matar.

.antigamente eu gostumava chorar por besteira. hoje….também choro por besteira, mas fico muda quando o negócio é sério. sempre fui geniosa. desde criança eu sempre sabia o que queria e exigia sempre que fizessem as minhas vontades. ser contrariada era uma das piores coisas que poderiam me acontecer…hoje…posso dizer que não sou mais que um centímetro mais tolerante. paciente…jamais.

.não brincava de boneca. eu coordenava a brincadeira. minha irmã arrumava toda a parafernalha, mas demorava tanto que eu já que queria passar pra outra brincadeira. eu sempre preferi os jogos. daqueles de pergunta e resposta, quebra-cabeça.

.eu gostava de andar descalça. hoje sinto desconforto nisso ¬¬. mas eu nunca tomei achocolatado com leite. prefiro chambinho pra lamber a tampa antes de jogar fora. eu sempre quis um cachorro, mas sempre enjoava do coitado. sorte do elvis…nosso amor ainda está durando. (rs)

.sempre amei mais minha mãe que meu pai. minha irmã que meu irmão. será que é pecado? eu nunca soube direito. faz um certo tempo que deixei de frequentar a missa. eu sempre fui encucada com a história do adão e da eva mesmo.

.o que mais doeu em mim até hoje? acho que foi não conseguir me apegar as pessoas. deve ser um problema pra ser tratado num analista. pena que eu acho isso pura perda de tempo. não me apegar pode fazer eu me sentir mais confortável às vezes. não depender nem dar satisfações pode até parecer bom. só não é quando a solidão bate e a gente daria um pedaço do dedo mindinho por um telefonema, um abraço, um sorriso, um aperto no peito provocado pela saudade de um alguém especial ou mesmo pela insegurança e instabilidade de um novo amor.

.eu deveria parar de pensar tanto. eu cresci. a imaginação deve ter ido junto. às vezes eu penso que a minha companhia é um tanto quanto disvirtuante. ela me disvirtua dos caminhos seguros. só me leva pro periagón! (rs).confesso que eu atóron! (rs)